VOLTAR

Futebol Feminino,

27.03.2017

Postado por Jéssica Mendes

Mulheres do Futebol: Maíra Liguori

Formada em Jornalismo pela PUC, Maíra Liguori tem mestrado em Comunicação pela Universidade Ramon Llull e é Mestre em Antropologia pela Universidade de Barcelona. É criadora do projeto Olga Esporte Clube, braço esportivo da ONG Think Olga, e que Maira faz questão de deixar claro que não aborda apenas futebol, mas o esporte feminino como um todo. Uma mente aberta e um papo bacana sobre empoderamento, mídia alternativa e claro, futebol.

Maíra 4

Maíra, você é criadora e fundadora do Think Olga, Olga Esporte Clube e do Think Eva.

Só para deixar bem pontuado que nós somos três meninas; Think Olga é uma ONG fundada pela Juliana de Faria, a Olga Esporte Clube é um projeto que fica dentro da Think Olga e eu sou a criadora desse projeto, então, também sem fins lucrativos e que também se apresenta como mídia alternativa. Na Think Eva eu sou cofundadora com a Juliana de Faria e a Nana Lima, só para deixar isto bem pontuado.

Como foi que surgiu a ideia de o Think Olga puxar o Olga Esporte Clube, com quais os objetivos você criou e pensou nessa possibilidade?

A Olga como um todo se coloca como uma ONG de empoderamento feminino por meio da informação, então, a gente busca temas, assuntos e fatos que sejam relevantes para as mulheres hoje no que se refere à luta por direitos, espaços e conquistas. Então, a Olga Esporte Clube surgiu de um desejo muito forte de abordar esse empoderamento no universo dos esportes.

Por quê? Qual o cenário que a gente reconhece? (Nos embasamos em uma pesquisa online com mais de 2.500 mulheres que trouxe dados um pouco mais tangíveis sobre isto). O que nós vimos é que as mulheres, em geral, têm uma relação muito empobrecida com o esporte. Quando falamos sobre mulheres e esporte, a não ser que seja esporte de performance (esporte profissional), a gente está basicamente falando em cuidado com o corpo, “culto ao corpo”. Quando se digitam “mulheres”, “esporte” e “Brasil” no Google e coloca em imagens, o que você vai ver são mulheres objetificadas ou mulheres usando roupas esportivas para fins de sensualização. Isto tem um efeito colateral muito forte na nossa vida porque durante a infância o esporte é parte da brincadeira – você corre, brinca e joga como uma coisa cotidiana -, mas quando entra na adolescência e começa a descobrir a sexualidade, começamos a nos afastar do mundo dos esportes.

Maíra 2

Parece que esporte é incompatível com feminilidade, isto traz para nós que o esporte serve para ficar magra porque você precisa de um bumbum empinado e uma barriga chapada e não porque o esporte vai te trazer outros benefícios, como ter uma comunidade de amigas, descobrir a própria força, o desejo de superação, o pensamento estratégico… o esporte é muito complexo e muito rico e quando falamos do universo feminino ele é apresentado de uma forma que é a conquista do corpo perfeito. Todo esse mecanismo faz com que, na vida adulta, se estabeleça uma relação de obrigação: o esporte é uma relação funcional, racional e prática e isso faz com que você vá para a academia, para a ginástica ou o que quer que seja, como se estivesse indo para uma tortura.

A Olga Esporte Clube quer justamente abordar essas barreiras que nos afastam do esporte, bem como mostrar que esporte pode ser muito legal, jogar com suas amigas e descobrir que você é capaz de dar um chute potente te faz uma mulher mais poderosa e empoderada e pode trazer contribuições para sua vida pessoal, profissional e para seus relacionamentos. Isto é entender que o esporte é muito mais do que um corpo bonito, isto que está no coração da Olga Esporte Clube.

Essa onda do empoderamento feminino, tema em alta que vem sendo muito discutido, parece não se refletir no noticiário esportivo. Nos cadernos de esporte dos principais jornais do País, pouco aparece o desempenho de atletas nas competições que envolvem as mulheres. Você acha que isto se deve por que a maioria dos jornalistas da diretoria de esportes são homens?

Com toda a certeza e não só isto; costumamos dizer que o mundo esportivo é feito por homens, para homens, sobre homens. Quando uma mulher entra nesse mundo ela é automaticamente hostilizada, seja como atleta, seja como repórter, jornalista ou comentarista e isto não é só no Brasil, é no mundo inteiro. Vemos que os principais ícones da virilidade, do que é ser homem, estão expressos lá. É ser forte, violento, desempenho, performance… tudo está muito associado, então cada vez que uma mulher dá um passo na direção desse mundo é como se ela não pertencesse àquilo e ela é automaticamente exclusa.

A mídia só reproduz os mesmos estereótipos e padrões que a sociedade entende do como é ser homem. É por isto que estamos muito afastadas. Uma repórter que ousa se aventurar na cobertura esportiva não só aguentará muito dentro da redação como ela ouvirá os piores absurdos. Quando uma mulher decide jogar ela vai ser chamada de masculinizada ou vai ter o corpo objetificado e colocado numa galeria de musas; quando ela se coloca no cargo de liderança, como exemplo a Emily Lima, agora à frente da Seleção Brasileira Feminina, toda a capacidade e a estratégia dela são colocadas em questão só porque ela é mulher.

Obviamente que a posição, no caso da Emily, está sujeita à crítica e ao escrutínio, mas acho que por ela ser mulher essas críticas são muito mais pesadas, como se ela tivesse que provar que ela merece estar naquele cargo muito mais do que qualquer outro homem. Nós vemos o futebol como uma máquina que gera muito dinheiro e é muito poderosa culturalmente no Brasil. É uma barreira muito grande para quebrar, de novo, se a gente está falando de um mundo que é de homens, por homens, para homens e que ainda por cima gera muito dinheiro. Quebrar essa lógica vai exigir muito mais esforço.

Maíra 3

Você acha que a mídia alternativa, como é o caso de vocês, têm cumprido o papel de promover a igualdade de gênero no esporte?

Certamente. Eu acho que temos iniciativas muito legais que trazem discussões bacanas e acho que ainda precisamos ter uma unidade entre as próprias mídias alternativas no sentido de unificar o discurso e trazer mais luz ao trabalho da outra, formar uma rede para que as mensagens cheguem mais longe e que seja mais poderosa. Mas eu só tenho elogios para essas mulheres que têm trabalhado nessa direção, que é o caso da Dibradoras, de vocês, Guerreiras Project e o Futebol para Meninas, da Luciane Castro.

Temos algumas iniciativas sendo muito importantes que ainda não conquistaram mainstream e isso é uma coisa que temos que fazer juntas. A própria Olga Esporte Clube tem que chegar mais longe do que está chegando e isso é uma meta.

E como você vê o cenário atual de vocês como uma ONG na tentativa de atrair parceiros e apoiadores (financeiros ou não) em uma causa de empoderamento feminino com foco no esporte?

Eu acho que o termo empoderamento feminino está cada vez mais presente na cabeça e nas conversas de marcas e empresas, mas eu vejo muito pouco esforço acontecendo na prática. Quando falamos de esporte, as próprias marcas esportivas, quando abordam linhas femininas e têm alguma mensagem de empoderamento, muitas vezes e só uma mensagem e por trás há um produto que continua perpetuando os mesmos estereótipos ou as mesmas opressões.

Um dos casos é a Under Armour com a Misty Copeland, a primeira bailarina negra a participar do bale de Nova York, que é um dos meus principais do mundo. Ela tem uma parceria com a marca, de artigos esportivos, e fez uma campanha sobre uma linha de roupas e acessórios. Tempos depois, ela se pronunciou nas redes sociais porque a Under Armour declarou apoio ao Trump, se colocando como aliada dos republicanos. Ela fez um manifesto dizendo que “apesar de vocês serem a marca que me apoia, vocês estão apoiando o sistema que me oprime”.

Não estamos falando de só criar um top que tenha uma cava bonita e um decote assim, a gente está falando de produtos e de posicionamento das empresas e de relações com os próprios clubes sobre o como se estão incluindo as mulheres nessa conversa, ou não? Como a gente está trazendo o mesmo produto para mulheres que, por exemplo, tenham os seios grandes e têm vergonha de correr na rua por que o top ou o sutiã não seguram o suficiente? É disso que estamos falando. Muito bonito, muito importante, mas ainda falta ação.

Sobre financiamento, ainda estamos lutando para conseguir chegar lá por que não é uma associação tão fácil e nem um esforço que muitas marcas estão dispostas.

Maíra 5

Sobre futebol feminino, esta nova regra da Conmebol que obriga os clubes a criarem equipes femininas, o que você acha dessa imposição?

Eu acho bom, acho que é uma medida necessária. Quando olhamos todos os times femininos do Brasil e vemos o quanto é investido e o quanto as mulheres precisam provar e lutar, jogar três ou quarto vezes na mesma semana ou em poucos dias em condições horríveis de um campo que não está legal ou sob altas temperaturas, tudo isto acontece no dia a dia das jogadoras e todo mundo fala “ó, que problema’’, mas poucas atitudes são tomadas.

Uma lei como essa, que obriga as pessoas a tomarem atitude em relação a isto, no começo talvez vejamos bastantes escorregões e aberrações, tentativas dos times de cumprir uma cota que não necessariamente represente o que eles pensam e o que eles sentem ou o respeito deles ao futebol feminino. Mas eu acho que no médio e longo prazo isso vai ser muito bom porque vai injetar dinheiro, dar visibilidade, ajudará a formar um público, tudo isso o que vai levar o futebol feminino adiante.

Você acha que se o Brasil tivesse vencido as Olimpíadas estaríamos em um cenário um pouco diferente quanto ao futebol feminino?

Eu acho que não, mas isto é uma opinião pessoal porque acho que o buraco é muito mais embaixo. Acho que a visibilidade que as meninas tiveram nas Olimpíadas já seria o suficiente para levantar todas essas questões do machismo no futebol. As falas da Marta, pedindo para as pessoas irem aos estádios assistirem as mulheres, tudo isso já seria o suficiente e elas foram muito guerreiras, elas chegaram muito lá na frente. Claro, se volta para casa com um título, talvez tivesse uma maior repercussão e visibilidade, mas a força e a luta delas naquele momento, até onde elas chegaram, deveria ser suficiente para essa conversa avançar.

Você costuma ir ao estádio, Maíra?

Eu vou menos do que gostaria, eu vou pouco, tenho um filho pequeno, então dificulta. Mas tenho muitas amigas que vão. Na Olga mesmo, na nossa equipe, tem meninas que amam futebol e participam das reuniões de torcida organizada muitas vezes, não das organizadas oficialmente, mas de grupos de organizadas que se colocam como grupos feministas. A gente tem uma interação muito legal.

Você acha que as mulheres ainda estão longe de integrarem cargos em comissões técnicas e em diretorias de clubes masculinos?

Sim, eu acho que no dia que a gente conseguir ter uma equipe de futebol feminina com o corpo inteiro de mulheres vai ser uma vitória tão grande, sabe? Dentro do universo masculino eu só vejo hostilização. Não vejo respeito, não vejo espaço e as mulheres que conseguem chegar têm toda minha admiração e respeito porque não é fácil, é um “clube do bolinha” mesmo.

Gostou? Continuem nos acompanhando por esta página, com link para cada uma das nossas mulheres do futebol.

Também não deixem de conhecer e apoiar nosso manifesto pelo futebol feminino clicando na imagem.

DáBolaPraElas_FINAL - Cópia

A Bola que Pariu