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, Futebol Feminino

31.03.2017

Postado por Raisa Rocha

Mulheres do Futebol: Michele Kanitz

Tranquila, focada e com a objetividade típica de quem sabe o que quer. A juventude não transparece nas falas, muito menos na caminhada de Michele, que hoje comanda uma das equipes mais tradicionais do futebol feminino brasileiro: o Ferroviária, de Araraquara.

Se o contexto da modalidade começa a sofrer mudanças positivas, o futuro se mostra promissor também por figuras como ela.

A guria em questão fecha nossa serie com entrevistadas de diferentes gerações, formações e áreas de atuação que constroem o painel de mulheres no futebol brasileiro, mostrando que lugar de mulher é onde ela quiser. 

Mateus Biasiolo

Mateus Biasiolo

Você também jogou, mas não chegou a estabelecer uma carreira. Tu faz parte de um movimento novo de treinadores que não são ex-jogadores. Como tu se vê dentro disso e como tem recebido a abertura?

Eu joguei futsal por bastante tempo e depois, na faculdade, tive um pouco a oportunidade de voltar a fazer o que eu gostava (jogar). Em campo eu sempre joguei, mas de forma informal, sempre com homens e com meninos, quando era pequena.

O mercado denomina essa separação, entre estudante e atleta profissional. E eu vejo um pouquinho diferente, porque toda experiência que eu tive em relação ao futebol, por mais que pouca, foi experiência. Eu tive contato com a bola, tive que saber movimentações, que aprender questões físicas, técnicas, táticas e psicológicas mesmo que de forma superficial, mas eu vivenciei também um pouco de cada.

Hoje em dia ainda é difícil jogar futebol (feminino), mas estão surgindo mais oportunidades do que antigamente. Por mais que eu não possa ter dado sequência como jogadora eu fui atrás do que eu mais gostava, que era a relação com a bola. E fui para o lado do estudo, entrei na faculdade já sabendo que queria trabalhar com futebol.

Como foi tua graduação?

Foi no Rio Grande do Sul e eu aproveitava toda oportunidade de congresso, curso ou especialização. Apesar da pouca experiência do campo, consegui e ainda consigo hoje sempre tentar pensar muito pelo lado do atleta. Sempre tentei ter um equilíbrio entre as duas relações: do conteúdo, que é o lado mais técnico, e do atleta. A ciência traz muita coisa positiva, mas tem coisas que você tem que adaptar a sua realidade. Acho extremamente importante você conhecer o ser humano, porque cada um reage de uma forma totalmente diferente.

É importante um equilíbrio na comissão para o conjunto dar certo. Eu acredito que estou no meio termo, porque vivenciei um pouco do campo e sempre fui muito atenta às coisas que eu aprendi. Se você for totalmente teórico, muitas coisas não vão dar certo. E se for totalmente campo, prático, que era a visão anterior, também tem coisas que não vão encaixar. Você tem que ter o equilíbrio entre as duas situações e ver o que vai se enquadrar com as peças que você tem na mão.

Mateus Biasiolo

Mateus Biasiolo

Você é muito jovem, 25 anos, e já está num grande clube que é o Ferroviária, com um baita desafio nesse momento tão especial para o futebol feminino. Você percebe algum preconceito ou desconfiança por conta disso?

As pessoas ainda são preconceituosas. Indiferente se eu tenho 20, 25, 30 ou 40, levo em consideração a experiência, o que você buscou, a qualificação no que você desenvolve e no que você já desenvolveu de trabalho. Acho que isso é o que vale. O preconceito vai ter, já tem por eu ser mulher e trabalhar nesse cargo que ainda é na maioria de homens, até no futebol feminino.

Pessoas de perto já me falaram que sou inexperiente. Eu posso ser ainda em muitas questões, mas não deixo de correr atrás, de saber, de estudar, de me aperfeiçoar cada vez mais. Só com o trabalho, com o dia a dia, é que realmente se aprende.

As questões de idade e de sexo para mim sempre foram indiferentes. Você tem que ser profissional no que você faz, saber o que você quer, traçar objetivos, saber como vai lidar com as situações… Se você tiver 50 anos e não for organizado e não tiver planejamento, é a mesma coisa. Sempre procurei ter um planejamento coerente com o que eu tenho em mãos, com a realidade do clube, para poder traçar os objetivos. E é o que estamos desenvolvendo aqui, batalhando todos os dias. Para mim, o que importa realmente é o profissionalismo da pessoa, saber aonde ela quer chegar, tanto pessoalmente como profissionalmente.

Ainda sobre formação, em que ponto tu vê o Brasil dentro do universo das pesquisas das práticas esportivas, no nosso caso o futebol? A distância conceitual com relação a outros países, mesmo sendo o país do futebol, é muito grande?

Pelo que eu já vivenciei e do pouco que eu conheço de estudos aqui no Brasil, há muitos núcleos de pesquisas muito interessantes, já bem desenvolvidas e com diversas parcerias com o exterior. Acredito que pela questão financeira, no contexto geral do Brasil, talvez muitos países estejam mais avançados por terem um apoio maior para pesquisas.

A teoria está ainda um pouco distante da prática. Há lugares que são muito mais teóricos e lugares que são mais práticos. Ressalvo, outra vez, que na minha visão é extremamente importante o equilíbrio, porque nem tudo que é teórico se consegue aplicar na prática e vice-versa. E como trabalhamos com o ser humano e com um ambiente muito imprevisível, precisamos ter adaptações.

Tu fez um pouco o caminho contrário, saiu do masculino para o feminino. Era uma intenção tua trabalhar com o futebol feminino ou foi uma dessas coisas que a vida coloca na nossa frente?

Comecei realmente no masculino e foi mesmo o acaso o ingresso no feminino. Até então, o meu último trabalho foi na parte de análise de desempenho num clube profissional, no Rio Grande do Sul. Então, saí totalmente de uma área para ir para outra – seja por questões de masculino/feminino e também pela área mesmo, da análise para o campo.

Quais pra ti seriam as diferenças primordiais do trabalho com meninos/homens e do trabalho com meninas/mulheres?

Acho que a principal diferença, principalmente com as atletas que eu trabalho hoje, é que elas são muito participativas, questionam bastante. Acho que isso é da mulher, o homem muitas vezes escutava a instrução, assimilava, reproduzia e ficava para ele. Mulher gosta de argumentar e questionar e acho que é muito produtivo, porque toda a vez que discutimos questões de treino e adversários nós temos um diálogo muito grande. Elas são participativas no processo.

Outra coisa extremamente importante é a questão fisiológica, que dá muita diferença. É preciso conhecer cada atleta realmente a fundo para saber o ciclo menstrual e toda a fisiologia do corpo para que se possa entender o como ela reage nos treinos. No masculino não tem essa questão hormonal.

E outra coisa a citar é que o futebol feminino ainda não tem base. Está agora em evolução, sendo desenvolvido, mas até estabilizar tal qual como o masculino vai levar algum tempo. Aqui no Ferroviária tem o sub-17, mas as meninas chegam com 15,16 e 17 anos para ter a sua primeira formação. Muitas vezes elas chegam muito cruas ainda em relação a alguns quesitos e em vez de acelerarmos o processo no profissional, temos que retardar em algumas questões mais técnicas, táticas, físicas e psicológicas que elas poderiam ter aprendido lá, numa iniciação que elas não tiveram a oportunidade.

Amanda Rocha

Amanda Rocha

A respeito das mulheres, que tu citou serem questionadoras, mais participativas… o quanto elas te ajudaram no teu processo de chegada, que foi de adaptação mútua; você com o universo do feminino, elas com o seu trabalho?

Foi uma relação muito tranquila desde o início, proveitosa. Essa questão delas argumentarem e questionarem faz com que qualquer profissional cresça e isso facilita o processo. É preciso ter um diálogo, né, estou lidando com pessoas e o futebol é gestão de pessoas.

Imagino que tu esteja assistindo ao jogo da Seleção (Brasil 3×0 Paraguai). Como que é sua relação com o futebol, assiste a muitos jogos? Quem são os principais técnicos que tu tem como referência?

É, estou olhando sim. Eu, particularmente, sempre gostei de olhar o futebol no geral. Tanto campeonatos no Brasil como os de fora, sempre que tem algum jogo, indiferente da divisão, acho que é importante analisar, sempre se consegue ver algo que possa trazer para sua equipe. Por isso que acho extremamente importante a avaliação.

Eu tenho vários nomes como referências e gosto um pouquinho do estilo de cada. Todos os treinadores têm um pouco a contribuir no que eu penso e eu tento trazer para minha realidade o que eu consigo aplicar e o que eu não conseguiria nesse momento, com o que eu tenho.

Logo da tua chegada já teve a Libertadores e os resultados foram abaixo.

Quando cheguei em Araraquara, o time fora remodelado no final do ano. Teve contratações de atletas, mas que foram convocados para a Seleção Brasileira e eu cheguei já sabendo disso. Então, por mais que tivéssemos treinando com eu não pude utilizá-las.

E o resultado, ele não foi abaixo do que era projetado aqui. Evidentemente que poderia ser um pouco mais positivo, mas foram uma derrota, uma vitória e um empate. Avaliamos muito mais o que elas entenderam nas 3 semanas de treinamentos. Foi pouco tempo com uma metodologia bem diferente do que elas estavam treinando e adaptadas. Tentei fazer com que não se tornasse tão diferente assim, que as mudanças não fossem tão bruscas.

Na competição (Libertadores da América), tivemos problemas e logo após o primeiro jogo toda a delegação teve infecção alimentar. Numa competição em que você precisa estar com todo mundo 100%… e foi justamente no segundo jogo que perdemos, o desgaste delas estava muito alto.

Com as peças que tinha na mão – um grupo jovem ainda, com quatro atletas mais experientes – conseguimos em pouco tempo de treinamentos começar a desempenhar um trabalho, a longo prazo.

Apresentação em 2016/Reprodução

Apresentação em 2016/Reprodução

Hoje, três meses depois, em que nível tu vê a equipe, quanto do que tu entende de futebol já está encaixando?

De lá para hoje, no início do Brasileiro, tivemos quatro semanas de treinos, então já começaram a entender um pouquinho mais o processo, sabem como eu gosto de trabalhar, alguns conceitos já entendemos e outros ainda precisamos corrigir e melhorar. Porque o trabalho não é em um ou dois meses que vai surgir. Agora, com Paulista e Brasileiro, dificilmente teremos tempo pra treino. Serão mais para correções já projetando o próximo jogo.

Sobre o momento atual da modalidade, na soma geral, o todo é mais positivo ou uma “obrigação” pode ser um tiro no pé futuramente?

Acho que com a obrigatoriedade se dá um passo importante. Claro que seria melhor aceito se realmente fosse o desejo de todos, mas infelizmente não é ainda. Mas eu acredito que pelos profissionais, interessados e engajados no desenvolvimento do futebol feminino, só tende a crescer. E esse espaço será importante pros profissionais crescerem, principalmente os que já estão aí, nas comissões e atletas. Isso vai abrir muitas portas e quanto mais qualificados, maior a competitividade.

Tu é torcedora de algum clube? E se sim, tu era do tipo que ia ao estádio?

A paixão pelo futebol não vem não vem à toa. Sempre fui apaixonada pelo time do coração e sempre, desde de pequena, frequentei estádios e acompanhei jogos dentro de casa e fora de casa. Mas, no momento que eu comecei a trabalhar com futebol… a gente realmente foca no trabalho e essa paixão é deixada um pouco de lado. Sou apaixonada pelo futebol, mas agora por um lado totalmente profissional. O sentimento muda, olho o futebol, mas não como torcedora, olho por um lado mais de análise, do que posso utilizar ou não.

Tu falou em metodologia e conceitos. A Emily citou, na apresentação, que a jogadora brasileira é preguiçosa taticamente. E isso tá diretamente ligado com o que já falamos, essa carência na base. O caminho é muito longo?

Eu acredito que agora, com a ampliação do futebol feminino, surgirão oportunidades de desenvolvimento e haverá uma crescente positiva. Acho que o processo de entender taticamente crescerá também, mas um pouco mais lento do que cresce o masculino. É aos poucos. E o primeiro passo é fazer com que tenha a formação de profissionais qualificados e, em cima disso, os ensinamentos e a metodologia, o que cria hábitos. E é isso o que estamos tentado aqui, criar hábitos com elas, o mais importante.

Apresentação em 2016/Reprodução

Apresentação em 2016/Reprodução

Visualiza a longo prazo chegar à CBF, na principal ou em alguma categoria de base?

Eu penso no hoje. Claro que objetivos pessoais e profissionais eu tenho bastante e ficarei muito feliz se isso acontecer algum dia. Poder trabalhar com o que você mais gosta e no nível mais alto dentro do seu país é um reconhecimento pessoal e profissional pelos anos de batalha que nós mulheres temos. Então sonho com isso sim, mas eu penso muito no hoje, que eu preciso trabalhar muito, construir minha base muito sólida para que isso seja possível.

Não posso pensar no amanhã. Penso a cada dia, um passo de cada vez, para que eu possa chegar lá. Como com a Emily; a carreira dela foi muito sólida como jogadora, depois como treinadora em clubes e agora a seleção, ela é com certeza merecedora de todo esse processo.

O feminismo está muito forte, no Brasil e no mundo inteiro. É um momento de muita efervescência política e social. E você, sendo mulher no futebol, naturalmente, atrai os olhares de meninas e mulheres que buscam representatividade. Tu trata disso com mais naturalidade ou te identifica também como uma “militante” na causa das mulheres?

A relação com o feminismo, eu vejo no contexto que estou inserida hoje, do futebol, de buscar o meu espaço. E volto na questão que já comentei com você antes, que é a relação do profissionalismo. Indiferente do sexo, o que importa é o profissional que tu é.

Eu luto pra isso, não é diferente sendo mulher, luto pelo meu espaço todos os dias estudando, dando a cara para bater… porque se não for assim, se a gente não lutar por igualdade, eu acho que as coisas não vão para a frente. Na minha visão, é importante mostrar que você é capaz, que você está preparada.

Você quando mais nova participou de alguns concursos de beleza. E tu é uma mulher bonita, que corresponde ao imaginário masculino da “bela mulher gaúcha”. E temos o futebol, um mundo ocupado por homens, feito por homens e para homens. Dentro disso, tu já foi pré julgada pelos teus atributos físicos, isso interferiu de alguma forma positiva ou negativa na tua trajetória?

Por influência da minha mãe, desde criança, eu trabalhei por um tempo como modelo quando mais jovem. Eu participai de um concurso só, mas que era relacionado a futebol. E acabei ganhando porque as perguntas eram todas sobre futebol e eu me envolvi muito com o clube pelo qual eu concorri. Acabei por uma temporada treinando a categoria sub-18 e o segundinho (o time depois do titular) e foi muito gratificante, porque eu só entrei no concurso sabendo que iria, na verdade, encaixar com o futebol. Se não, eu não teria participado.

Com relação às questões físicas, já tive alguns problemas com isso, acredito que ainda vou ter porque muitas pessoas pré julgam sem ao menos conhecer você. Ainda hoje, infelizmente, a aparência conta mais do que qualquer outra coisa e no mundo do futebol, justamente por ter muito mais o lado masculino do que o feminino, tem todo esse pré conceito pela aparência.

Mas, são coisas que a vida ensina o como lidar com a situação. Mostrando que você é capaz as pessoas acabam te vendo de outra forma. Felizmente, quem me trouxe para o Ferroviária foi uma pessoa extremamente profissional, que me julgou pelas minhas qualidades, pelo o que eu já tinha vivenciado e pelo o que eu poderia contribuir para a instituição. Assim como outras pessoas daqui também, quando me entrevistaram, fizeram da mesma forma. E são essas as pessoas que eu levo em consideração, pois são profissionais e te olham dessa forma. É como eu gostaria que fosse sempre, mas infelizmente não é.

 

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