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21.03.2017

Postado por Roberta Pereira da Silva

Quem tiver que piscar, que pisque agora

O título é uma referência à animação Kubo e as Cordas Mágicas, indicada ao Oscar (2016) na categoria de melhor animação

A animação “Kubo e a Cordas Mágicas”, inspirada na mitologia oriental, trata-se de um idoso que retira os olhos de seus familiares para que estes “vejam” apenas a perfeição, já que o mundo visível só possui maldade, dor e tristeza. A “cegueira” seria importante para manter o mundo das estrelas intocável e a família unida. Tenho a impressão de que o debate sobre o racismo no futebol passa por esta lógica, aonde o futebol seria a representação máxima da “democracia racial” estabelecida no Brasil, o espaço privilegiado de ascensão social do homem negro e a valorização das características “natas” da população negra. Logo, o futebol seria o reino encanto do ancião cego e todos estariam confortáveis em não enxergar.

Assim, quando ocorre uma situação de racismo no futebol, trata-se tão somente de um ato isolado que diz respeito apenas à irracionalidade deste ou daquele indivíduo praticante e não de uma sociedade que reproduz a todo tempo, sem pausa, a violência do racismo contra homens e mulheres negras. Há provas cotidianas e documentadas de que o racismo não é esporádico e faz parte do futebol, desde sua fundação no Brasil.

Marcos Bezerra/Futura Press

Marcos Bezerra/Futura Press

No dia 07/03/2017, por exemplo, o jogador Bruno Henrique, do Santos, sofreu insultos racistas após a derrota para o Corinthians. Alguns jogadores santistas já estavam sendo fortemente cobrados pelo desempenho do time no Campeonato Paulista, contudo, com Bruno foi diferente, após a derrota no clássico foi chamado de macaco do c* na rede social Instagram. Ou seja, a capacidade ou não de levar o time à vitória recaiu sobre sua cor e não em sua habilidade como jogador de futebol. Este e outros casos de racismo estão sendo monitorados e publicados anualmente pelo Observatório do Racismo no Futebol. Só pra lembrar, o negro no futebol pode ser considerado o trabalhador braçal, já que técnicos, jornalistas e dirigentes são raríssimos.

Toda essa ideologia da “cegueira” que perpassa o futebol tem uma função social bem definida e, para manter-se intacta, necessita de outros instrumentos de formulação teórica. A reveladora e provavelmente primeira elaboração teórica sobre o futebol, O Negro no Futebol Brasileiro, publicada em 1947, tornou-se bibliografia obrigatória. Escrita pelo jornalista Mario Filho (1908-1966), é utilizada em dissertações, teses, livros e etc. Filho de Mario Rodrigues, proprietário do jornal “A Manhã”, o autor foi um dos precursores do jornalismo esportivo e iniciou sua carreira como repórter. Tempos depois, a família perde a propriedade deste jornal e lança o periódico intitulado “A Crítica”. Com o falecimento do irmão e do pai, Mario Filho assume o jornal e passa a publicar a cobertura das partidas do futebol carioca. Com o fechamento do jornal, Mario Filho cria o “Mundo Esportivo”, composto por páginas e páginas destinadas a comentar, discutir, divulgar o futebol. Influente na área, defendeu o profissionalismo e teve papel fundamental na defesa da construção do Estádio Maracanã, que possui seu nome, para a realização da Copa do Mundo de 1950.

003 Mario filho

O que nos interessa aqui é o fato de sua produção jornalística e acadêmica atravessar os anos e contribuir mesmo que indiretamente com a reprodução ideológica do racismo. O prefácio é de Gilberto Freyre, ou seja, toda elaboração estará fundamentada nas ideias eugênicas da época, onde reconhece o futebol como “instituição considerável, capaz de condensar os impulsos irracionais do homem brasileiro” (Freyre in Filho 2015), não é preciso dizer a cor do “homem brasileiro”. Outra afirmação seria sobre a possibilidade do negro em realizar uma atividade de aceitação social e não atividades “criminosas” e proibidas pelo Estado. O prefácio conclui que não há instituição mais importante que o futebol na ascensão social do negro. Tanto Freyre como Filho irão fundamentar que o samba e a capoeira irão se transmutar para o futebol e darão características brasileiras ao esporte bretão.

Consideram a premissa de que os negros seriam irracionais e de que suas atividades seriam moral e socialmente condenáveis por trazerem prejuízo à sociedade brasileira. A ginga a e malandragem, atribuídas como características “natas” da população negra, darão origem ao futebol “arte”. Contribuindo assim para a formação do estereótipo que configura-se na impossibilidade do(a) negro(a) realizar qualquer outro tipo de atividade a não ser o futebol e depois o carnaval.

Filho irá descrever com detalhes fatos ocorridos nos primórdios do futebol brasileiro, principalmente nas décadas de 30 e 40. Contudo, tais descrições não são despretensiosas e sem um objetivo previamente ideado, os fatos explanados carregam em si a fundamentação do prefaciador. Dois capítulos são emblemáticos: A ascensão do negro e A vez do preto, escritos certos por linhas retas, trazem em seu bojo situações de racismo, mas que na forma apresentada não constituem necessariamente a condição real e objetiva da população negra, pós processo de escravidão.

Longe de ter a pretensão de aprofundar o tema racismo, tampouco suas relações no Brasil, o autor em tela trata de listar situações ocorridas no futebol que remetem ao leitor uma apreensão de que o racismo não é racismo e sim, atitudes dos dirigentes quando os times não alcançavam seu objetivo ou dos torcedores, quando viam seus times derrotados. Ou seja, quando um dirigente acusava um jogador de “negro sujo” isso não queria dizer necessariamente que estava sendo racista, mas que estaria “irritado” com a atitude do jogador. Mera coincidência com os dias atuais?

003 Caju

Paulo Cézar Caju/Reprodução

O autor finaliza fazendo crer que o futebol é ferramenta fundamental para a união de negros e brancos, pobres e ricos. Ele não utiliza em seus escritos a denominação “democracia racial”, mas utiliza-se de alguns eventos emblemáticos onde negros estavam juntos com brancos, para dizer sem dizer. Sua obra é uma afirmação de que os times exerceriam a feliz capacidade de integração racial.

003 Barbosa

Barbosa/Reprodução

O que Filho não contava era que a Copa de 50 traria os elementos necessários para que sua teorização fosse considerada incapaz de explicar a situação social do negro no futebol. O Brasil perderá para o Uruguai na final e a culpa da derrota cairá sobre três jogadores negros: Juvenal, Bigode e Barbosa. Os torcedores ecoavam insultos racistas e a mídia esportiva construía matérias explicativas de reforço.

Só para pontuar, nessa época Leônidas da Silva já havia se consagrado como ídolo brasileiro, foi considerado o melhor jogador da Copa de 1938, era o principal garoto propaganda da época, tinha inúmeras posses, casas de aluguel e uma fortuna acumulada. O que só reforça que a ascensão defendida pelos autores citados diz respeito apenas a alguns jogadores, no máximo às suas famílias, e que tal ascensão financeira é incapaz de alterar o movimento da história, uma vez que se trata de uma possibilidade individual. As relações racistas cotidianas ultrageneralizadas não se alteraram com sua “ascensão”, pelo contrário, suas expressões estavam cada vez mais perversas e foram expostas na final de 50 e estão presentes cada vez mais fortes nos sombrios dias atuais.

O chocolate “Diamante Negro” foi uma homenagem à Leônidas da Silva, considerado o melhor jogador da Copa de 38/Reprodução

O chocolate “Diamante Negro” foi uma homenagem à Leônidas da Silva, considerado o melhor jogador da Copa de 38/Reprodução

Tudo isso pra dizer que leiam, critiquem e questionem. Não só a obra de Mario Filho, mas toda a cegueira que não deixa ver o racismo no futebol, o machismo e a homofobia. Defendam com unhas e dentes os olhos que ainda te pertencem.

 

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