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19.06.2017

Postado por Colaboradoras

A guerra do fogo

Hoje vou abrir mão de escrever sobre o empate de 0x0 entre Santos e Ponte Preta, pelo Campeonato Brasileiro, disputado na noite de 17/06/2017. O silêncio frente às mortes no futebol é ensurdecedor aos meus ouvidos. Ontem, 18/06/2017, cinco torcedores ficaram feridos em uma “briga” entre torcidas na entrada do estádio Couto Pereira – Curitiba. As informações publicadas nas redes sociais e nos sites de esporte são imprecisas.

Foi divulgado um vídeo do momento exato das agressões, vários torcedores do Coritiba chutam, batem, dão socos no torcedor corintiano caído no chão. Após alguns minutos, um torcedor do coxa, provavelmente um dos diretores da torcida, impede que os demais continuem com a “selvageria”. Opa, selvageria?

Os povos selvagens lutavam pelo fogo, elemento fundamental para aquecer e produzir alimentos, ou seja, o fogo significava a vida e não a morte. Portanto, estes torcedores não são selvagens. Animais selvagens, então? Absolutamente não, os animais também utilizam de suas forças e psique para alimentar a si e suas crias, matam para que a vida tenha continuidade.

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Filme “A Guerra do Fogo”

Humanos, estes torcedores são seres humanos, dotados de teleologia, capacidade que os diferencia dos animais e permite a projeção da ideia antes de transformá-la em ação. Suas atitudes não estão determinadas no DNA, como a dos animais, o humano é capaz de transformar a natureza e neste processo transformar-se a si mesmo. O humano possui desejo, demandas e necessidades, que são supridos cotidianamente, e a todo momento são criados e (re) criados novos desejos e novas necessidades. Posto isto, é fundamental identificarmos os torcedores como humanos, os que agridem e os que morrem, ou então vamos continuar em silêncio frente a barbárie.

Não é possível a naturalização da violência, ela não é natural, é social, construída socialmente. Assim sendo, somos capazes enquanto humanos de criar mecanismos para sua superação.

Quero aqui expressar meu profundo pesar com a violência entre torcidas que ocorre no Brasil, país primeiro colocado em número de mortes entre torcedores. A “briga” ocorreu por volta das 8h30, o jogo por volta das 11h, mas como não reconhecemos o outro como humano, o jogo ocorreu normalmente. Os jogadores já deviam saber do ocorrido, porém SILÊNCIO. Os torcedores ocuparam as arquibancadas e torceram pelo seu time, nenhuma solidariedade, da TV nenhuma palavra, das instituições que (des) organizam o futebol, nenhuma nota pública. Inaceitável o (des) valor da vida.

“Ah, mas ele não era santo”, podem dizer alguns… “ah, mas que o time tem haver com isso?” Diriam outros. Eu digo: numa situação como esta todos (as) nós somos responsáveis e todos (as) nós somos vítima desta violência. Não ocorrer a partida é o mínimo que se espera de um país responsável pelos seus. Me estranha que um jogo deva ser paralisado devido aos sinalizadores, mas não pode parar se morre alguém.

Certamente, nos próximos dias a fórmula mágica será aplicada nacionalmente, a tal torcida única. É possível que em nome da honra a torcida corintiana revide. Pensando no sistema penal brasileiro podemos inferir que a utilização do uniforme do time ou da torcida organizada funciona como proteção legal; se eu agredir alguém no intuito de matar, sem as tais vestimentas é tentativa de homicídio, por outro lado, se estiver as usando nada acontece. São contradições, engodos e falácias em torno da violência no futebol. Se por um lado há uma criminalização das torcidas organizadas, não se criminaliza o indivíduo que comete o crime, e olha que não estou aqui para defender o sistema penal como solução.

Escrevo estas linhas como forma de expressar minha tristeza, meu descontentamento e minha indignação com o silêncio, como diria Clarice Lispector, porque há o direito ao grito então eu Grito!!!

 

Em tempo, por volta das 15h foi confirmado que o rapaz agredido não havia morrido, a PM explicou que houve uma falha na comunicação. Em nota oficial o Corinthians informou que o torcedor passava bem e já estava retornando para casa. O que não invalida as linhas deste texto, já que em 2016 foram mais de 16 mortes, quantas mais precisaremos ainda?

 

Por Roberta Pereira

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