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29.09.2017

Postado por Colaboradoras

Flamengo, eu que te amo tanto

Cruzeiro 0 (5 x 3) 0 Flamengo – Final da Copa do Brasil 2017

Esse amor nasceu do berço. É daquele arrebatador, com ele não existe isso de abandonar, nem em pensamento existe essa possibilidade. Fui criada para ser flamenguista, dessas bem empolgadas, e durante esses anos já vivi momentos de alegrias gigantescas e de profundas tristezas.

Coincidentemente, essa semana me veio na lembrança aquele trágico episódio de 2008: a derrota para o América do México em pleno Maracanã. Uma das mais inacreditáveis e marcantes derrotas da história do clube e eu, com meus 13 anos, lembro-me de ficar incrédula com o resultado final. E para falar de tristezas não preciso buscar na memória algo tão distante, recentemente me vi aos prantos após a eliminação da Copa Libertadores de 2017…

E a última quarta-feira foi mais um dia de decepções, digamos que uma tragédia anunciada, já que tínhamos uma insegurança no gol. A torcida até tentou maquiar essa insegurança depositando motivação no goleiro Muralha e de todo não foi uma má ideia, em alguns momentos vi o jogador mais seguro. Mas é aquela coisa, não mudaria da água para o vinho e não mudou. O jogo se desenrolou para ser decido nas cobranças de pênaltis. E em cobranças de penalidades máximas é preciso mais do que simplesmente confiança.

Pênalti não é loteria, o goleiro que entra em uma disputa com essa mentalidade já perdeu. Se fosse loteria não era preciso treino, se treina é porque exige técnica. Escolher apenas um lado para pular em todas as cobranças foi desacreditar na própria capacidade.

Levar a cobrança para os pênaltis cientes da tamanha dificuldade foi demais para a fé rubro-negra, ficar tocando bola no meio-campo com o relógio marcando 45 minutos foi demais para a sanidade mental da nação. Ficou insano.

Jorge Rodrigues

Jorge Rodrigues

A vulnerabilidade do goleiro aliada à ineficiência do craque do time resultou em mais uma noite triste para nós, rubro-negros. Diego foi muito mal durante os 90 minutos e conseguiu ser pior na cobrança da penalidade máxima, não desmerecendo o goleiro rival, mas em decisões não devem haver espaços para erros e não foi a primeira vez que ele falhou em um momento decisivo.

Um trecho da crônica “O Milagre”, de Nelson Rodrigues, publicada pela Manchete Esportiva em 03/03/1956 elucida muito bem o ocorrido ontem: “…de fato, o que se sucede com a camisa do Flamengo desafia e refuta todas as nossas experiências passadas, presentes e futuras. Vejam vocês: – uma camisa que só falta dar adeusinho e virar cambalhota. Quando o time não dá mais nada, quando a defesa baqueia, e o ataque soçobra, vem a camisa e salva tudo. Diante dela, todos se agacham, todos se põem de cócoras, todos babam de terror cósmico. E vamos e venhamos: – como resistir a uma camisa que tem suor próprio, que transpira sozinha, que arqueja, e soluça, e chora? O Flamengo só perde quando não põe para funcionar o milagre da camisa…”

Reprodução

Reprodução

Milagres acontecem, não foram uma nem duas vezes que o Flamengo experimentou o sabor do milagre e o poder da fé rubro-negra. Mas para isso é preciso ser Flamengo, é preciso chamar a responsabilidade e ter a consciência da nação que representa. Não somos o time do marasmo.

Um dia desses estava lendo um especial do narrador Milton Leite e ele dizia algo muito relevante e atual; sobre os jogadores, dizia ele em entrevista para a UOL Esporte: “Você vê o torcedor ficar desesperado quando o time dele é eliminado ou perde um jogo importante. Mas você percebe que, no meio do futebol, isso não é assim. O jogador, mesmo, não fica tão abatido. Ele sabe que daqui um mês, ele vai estar em outro time”.

Parece até ingenuidade acreditar no futebol movido à paixão, no futebol que não visa só o capital. Com algumas raras exceções, às vezes aparenta que a única parte que fica de verdade afetada é o torcedor. Os diretores lamentam, os jogadores idem, ambos mais preocupados com a imagem.

A Copa do Brasil era o renascimento do time após o fracasso no início do ano, felizmente o futebol não sobrevive só de vitórias e alegrias, faz parte do jogo perder. Mas o que mais incomoda nesse atual Flamengo é que ele vive do eterno “quase” e chego a me perguntar até quando continuará vivendo de expectativas e poucas ou nenhuma conquista?

Perdemos a taça não só por culpa de Muralha e Diego, perdemos pela falha no Rio, pela falta de eficiência na hora da finalização, pelo toque de bola sem objetividade. Perdemos por erros nossos. Esse ano de 2017 deixará alguns traumas na memória dos rubro-negros.

Ainda temos dois campeonatos pela frente e um objetivo de pelo menos conquistar a classificação para a Copa Libertadores 2018, não demorará muito e já será possível notar a nação voltando a sonhar com os vôos do urubu guerreiro, prontos para o próximo duelo. E esse sentimento de povo aguerrido nada e nem ninguém poderá tirar do nosso DNA rubro-negro.

 

Por Jaqueline Botelho

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