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22.11.2017

Postado por Colaboradoras

Uma visita a Lanús: quem é o adversário do Grêmio na final da Libertadores 2017?

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Final da Libertadores 2017. Aquela famosa partida de 180 minutos que vale a taça de campeão da América será disputada nessa quarta-feira, 22, e, na próxima, 29 de novembro. Representando o Brasil, o Grêmio chegou até essa etapa pela quinta vez e quer ser tri da competição. Mas, pela frente, alguns obstáculos dificultam o caminho do Tricolor Gaúcho. Polêmicas sobre drones na mídia e cobrança dos torcedores por ingressos são alguns dos problemas da equipe fora de campo. No entanto, a maior delas veste grená, fala castelhano, tem sede da primeira vitória e quase não é lembrada: o Club Atlético Lanús.

É Brasil e Argentina, mais uma vez, ainda que, infelizmente, alguns brasileiros não pensem assim e torçam contra os conterrâneos. O fato é que, se o Grêmio não entrar em campo dando tudo pela camiseta, a gana dessa equipe em vencer a sua primeira Libertadores, dois anos após o seu centenário, pode ser perigosa. Prova disso foi a virada histórica na semifinal contra o River Plate, em que o Lanús perdia por 3 a 0, contando o placar agregado. No final do primeiro tempo começou a virada e o Granate, apelido carinhoso do clube, acabou se classificando.

Uma coisa é certa: já conhecemos de perto a torcida do Grêmio – tendo algumas fanáticas em nossa equipe, inclusive, esta que vos escreve. Assim, A Bola que Pariu decidiu descobrir quem é a torcida do adversário do Tricolor Gaúcho, como é o local de onde vem o Lanús e a mística da paixão pelo Granate. Tudo isso, obviamente, pelo olhar feminino das mulheres de lá.

A chegada em Lanús

Estação Lanús

Estação Lanús

Lanús tem aproximadamente 460 mil habitantes. Porém, o local é dividido por regiões, fazendo com que a parte em que fica a sede do Club Atlético Lanús pareça um bairro pequeno de uma prainha, ou de uma cidade do interior. Sabe aqueles que tem a rua principal com muitas lojinhas, uma praça e as casas se estendem pelas ruelas adjacentes? É assim mesmo por ali.

Além dos pequenos comércios, o trajeto tem algumas bancas de camelô. Uma delas, aberta há 34 anos, é da família de Eliana Chacón. Ela trabalha ali, ao lado do pai, e eles relatam que a torcida Granate é a mais fã do time, dentre todas que conhecem. Segundo os comerciantes, já compraram na banca torcedores de locais distantes, como Tierra del Fuego e Uchuaia. Aparentemente, a procura cresce junto com o desempenho da equipe que, nessa década, ganhou a Sul-Americana (2013), o Campeonato Argentino (2016), e, agora, chegou à última etapa da Libertadores. “Nos últimos tempos, somente com artigos do Lanús, estamos fazendo 10 mil pesos [aproximadamente dois mil reais] por dia”, afirma Eliana.

Banca da família Chacón

Banca da família Chacón

Quanto mais se adentra o bairro, maior é o clima da Granate pairando no ar. Ele começa com uma camiseta de vendedores ambulantes, se estende pela vestimenta de meia dúzia de torcedores e, de repente, começa a cobrir portas de estabelecimentos e paredes de casas. Aí você já sabe que está entrando em um território que tem dono: é a casa do Lanús. E, nesse lugar, todos sabem indicar perfeitamente aonde é o estádio (ao contrário do Google Maps). Pelas calçadas, as conversas: “Lanús ganhou todas as últimas finais que disputou”, disse fulano. Ao que retrucou o outro: “Mas agora é no Brasil…”.

La Fortaleza e sua hinchada

Hinchada, no espanhol portenho de Buenos Aires e sua ‘região metropolitana’, quer dizer torcida. Hincha, torcedora ou torcedor, e por aí vai. Foi buscando elas, as hinchas do Lanús, que fomos até o Estádio Ciudad de Lanús – Néstor Díaz Pérez. A sede do La Fortaleza, como é conhecido, é grande e, sob o sol do meio-dia, se destaca em meio ao bairro humilde e frente ao seu campo. Está longe da discrepância entre a Arena gremista e o Humaitá, é bem verdade, mas causa certo estranhamento.

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No entanto, essa sensação se dissipa quando começam a chegar os torcedores no local (que ainda abriga diversos outros esportes). Sejam casais comprando ingressos para o jogo de volta ou mães levando os filhos aos treinos da base, todos parecem muito íntimos e à vontade. Passam seus cartões na roleta e adentram seu templo desportivo. Ao lado da portaria, um ambulante vende artigos do Granate tranquilamente e, quase todos que saem do local, dão aquela olhadinha. Afinal, a grande decisão se aproxima e é preciso estar bem fardado em um momento tão importante.

Laura menor

Foi por isso que Laura Román escolheu lentamente, remexendo as camisetas, até encontrar uma grená para chamar de sua. Agora estava pronta, já que a recém havia garantido a própria entrada, a do pai e a do marido. Nascida e criada em Lanús, a torcedora viajou até ali por uma hora e meia, desde a Capital Federal, onde mora. Apesar de viver longe, cultiva seu time de infância no coração, seguindo a tradição familiar. “A paixão vem desde sempre”, enfatiza Laura.

Ainda que não a conheça, Laura divide essa paixão com outra torcedora fiel: Monica Luchina. Mas não é só isso que as duas têm em comum. Elas, assim como muitas outras mulheres pelo bairro, trazem o time no coração por influência dos pais. Laura seguiu esse rumo desde pequena, já Monica resistiu. O pai desta foi torcedor fanático do Lanús, porém ela e o irmão eram rebeldes e torciam para Boca Juniors e River Plate. Aos 20 anos, ao casar-se, a hincha incorporou o time do marido: o Racing. Porém, a paixão pelo Granate falou mais alto com o nascimento do filho, há 14 anos. Desde então, os dois são sócios e seguem o legado do pai/avô. O filho dela, inclusive, estuda na escola do Club Atlético Lanús, localizada junto ao estádio.

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Cumprindo o papel de boas torcedoras, as duas acreditam totalmente na sua equipe. Laura, inclusive, assegura estar preparada para a pressão da final. “Já sei como é a emoção, porque estive ali em 2007 [Torneo Apertura] e pude sentir”, descreve ela. É provável que a torcedora se surpreenda com a diferença entre a final da Libertadores e do torneio nacional. Mas o que é lindo em tudo isso é a mística de um time de bairro que chega a essa etapa pela primeira vez. Um time de bairro, porém não, necessariamente, pequeno. Monica é uma que deixa isso bem claro! Ela afirma saber que é um momento único na história do clube, porém, quando o marido comenta a importância dessa final, por ser um time pequeno, a torcedora e o filho defendem o Granate rapidamente. “Não ouve o que ele diz. Não é pequeno nada!”, gritam os dois, em tom de brincadeira.

Granate e Tricolor – Lanús e Porto Alegre

Com grandes reformulações na última década e com a evolução da equipe, o Club Atlético Lanús ganhou um setor de Marketing para reforçar suas ações. E quem trouxe essa ideia ao Granate, há cinco anos, foi a Paula Ricciuti. Pois é. A presença feminina em Lanús não marca apenas as arquibancadas, mas os bastidores também. A profissional destaca que, ali, há diversas mulheres exercendo cargos de diretoria, dentre elas, a presidente de cultura e a secretária.

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Vendo Paula falar, não se sabe, ao certo, quem está mais nervosa: ela, Laura ou Monica. A verdade é que não faz diferença, pois todas são mulheres decididas se mobilizando para um grande momento. E sua parte nessa engrenagem não foi fácil. Paula relata como a estruturação das duas partidas da final foi árdua no extracampo, citando as burocracias da Conmebol e a importância de ter o mando na decisão. “Preparamos tudo com muito profissionalismo, mas também com muita paixão”, declara ela. Isso porque Paula é outra grande fã do Granate. O pai e o irmão embarcaram em um carro e estão enfrentando juntos as 17 horas de viagem a Porto Alegre. Já ela, que conseguiu unir trabalho e amor, pega um voo, nesta quarta-feira, até a capital gaúcha.

Muitas atividades foram realizadas para destacar esse feito inédito do Lanús e Paula esteve envolvida diretamente neles. Um dos principais atos motivacionais foi a hashtag #CaravanaGranate, lançada durante a saída dos torcedores para o Brasil. Conforme a profissional, o objetivo é que os hinchas compartilhem nas redes sociais como está sendo sua viagem. Além daqueles que estão indo de carro e avião, Paula afirma que o clube disponibilizou 25 ônibus de 65 lugares, a preços acessíveis (entre 3.400 e 4.300 pesos), até a Arena do Grêmio.

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E é em um deles que viaja Karina Florentin nesse momento. Sozinha – ou acompanhada dos hermanos de equipe – ela embarcou às 19h (horário de Brasília), saindo de La Fortaleza, e chegará no horário do jogo, 21h45. Tudo isso tem a ver com a paixão que move essa torcida. Karina trabalha na bilheteria do Lanús há 17 anos. Ela conta que a estrutura atual do clube, grande e bonita, era bem diferente quando chegou ali. “Eu vi tudo isso começar. Conheço todos, desde as categorias de base”. Foi lá nesse passado, que ela guarda com carinho na memória, que surgiu o amor pelo Granate. Desde então, a bilheteira segue o time aonde for e tem esperança de levantar a Taça Libertadores, ainda que reconheça a qualidade do adversário: “Já vi o Grêmio jogar e são muito bons. Porém, depois do River [semifinal 4×2], não há como não termos fé!”.

Micaela Espíndola e a mãe, Marta Ramirez, também estavam de malas prontas para o Rio Grande do Sul, nesta tarde. Viajam à primeira partida final com mais dois integrantes da família: o pai e o irmão de Micaela. A garota, de apenas 20 anos, não tem toda a experiência como torcedora que as outras mulheres que conhecemos, porém demonstra o mesmo amor pela equipe.

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Ensaiando um português, que praticou durante as férias em Florianópolis, ela compartilha: “É muita felicidade e alegria”, descrevendo o sentimento que a invade durante a espera da viagem. Marta e a filha destacam o quanto chegar até esse ponto da competição é importante ao clube, que é muito família, de bairro. Apesar de ainda não acreditarem que estão disputando a final para elas tão inesperada, embarcaram para Porto Alegre em um clima pacífico, esperando que sejam bem recebidas, da mesma maneira que pretendem receber a torcida do Grêmio no dia 29.

Aprendemos algo com a torcida do Lanús: a respeitar a mística de bairro e a paixão dos Granate. Mais do que duas partidas de futebol, o que vai se ver nos estádios, nesse dia 22 e no próximo 29, são duas torcidas apaixonadas que desejarão a taça mais do que tudo. Porque, quando torcer vira paixão, não há distância ou problema que impeça de apoiar. Granate x Tricolor. O que podemos – e devemos – esperar? Respeito mútuo. Das arquibancadas, com certeza, surgirá um grande espetáculo. Já dentro de campo, que vença o melhor (e que seja o Grêmio, pede meu coração Tricolor).

 

Matéria e fotos por Kyane Sutelo

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