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21.12.2017

Postado por Colaboradoras

A cara e a coragem, o Tricolor Paulista de 92

As ruas tremiam e bradavam um sopro de esperança, o povo unido saía soberano em marcha, ouvia-se o majestoso coro que antecipava o que estava por vir, as batidas cardíacas pulsavam nos pátios das universidades. Estava anunciada a vitória, não havia mais como voltar atrás. Era uma nova era, um momento decisivo que entraria na história do país. Os Caras Pintadas eram a cara e a coragem do Brasil. Um jovem adulto que se respeita, muito prazer, 1992.

No mesmo ano em que se celebrava a voz das ruas e da justiça, ironicamente 111 detentos foram mortos em intervenção policial que ficou conhecida como o Massacre do Carandiru, em São Paulo. Como morte e vida são complementares, no mesmo ano veio ao mundo o garoto que seria, duas décadas e meia depois, protagonista da maior transação já feita na história do futebol. 1992 é logo ali e o futebol é mais que o campo, é tudo que acontece dentro e fora dele.

Não muito longe das ruas efervescentes, embora algum tempo depois, longas horas de voo aguardavam o Tricolor Paulista para chegarem a um igualmente longínquo destino, o Japão. O avião que carregava os jogadores do São Paulo e a alta cúpula tricolor para um dos maiores desafios do clube tinha a cara sem coragem do Brasil: a fatídica divisão de classes. Enquanto os convidados da alta cúpula viajavam na primeira classe, os jogadores não gozavam de tal conforto. Percebendo que a desigualdade deixava a terra e atingia os ares, Telê Santana não se calou.

– Está errado, presidente! Quem tem que viajar no conforto são os jogadores, quem vai trazer o Mundial pro senhor são eles.

Com a cara e a coragem, Telê ainda acrescentou:

– Se é desse jeito, coloque então seus convidados para enfrentar o Barcelona.

Dessa forma, os jogadores foram remanejados para a ala que pudessem usufruir de maior conforto e tranquilidade para o desafio que viria, o Barcelona dos pés de Guardiola e comando de Cruyff. Mas não foi bem assim que aconteceu. Telê não só perdeu o assento que tinha na primeira classe, como foi remanejado pela alta cúpula para viajar na “classe trabalhadora”. E obviamente, conhecendo o mestre, melhor assim. Um por todos e todos por um.

Quiçá o Japão fosse mais perto, mas para se chegar até lá é preciso sobrevoar o mundo inteiro. E, como o futebol imita a arte dos poetas, era isso mesmo que aconteceria: o São Paulo estava por cima do mundo, vendo tudo da janelinha. Como bem afirmou Pepe Guardiola, sem rodeios, “o São Paulo dominou o mundo”. Johan Cruyff, treinador blaugrana, ainda decretou: “Se é para ser atropelado, que seja por uma Ferrari”. E assim aconteceu quando saímos vitoriosos de Tóquio, o Mundial é brasileiro e é nosso.

Enquanto tudo isso ocorria, não só a briga de Telê como também todos os acontecimentos deste 1992, estavam lá no avião que rumava a uma das datas mais importantes para o São Paulo, Toninho Cerezo, Cafu, Zetti, Palhinha, Pintado, Muller e Raí. Não se tratava do São Paulo do Cerezo, ou o São Paulo do Raí. Esses eram o Raí e o Cerezo do São Paulo de 1992. Uma seleção tricolor que colocou o mundo para assistir a uma aula de futebol e trabalho em equipe. Era um espírito de equipe essencial às grandes seleções que alcançam feitos como esse: o 2×1 no Barcelona era a maior prova de uma equipe entrosada.

Foto: Agência AFP

Foto: Agência AFP

Na volta ao Brasil, “o São Paulo parou São Paulo”, como bem constatado por Pintado, e Raí complementa: “A TV Globo queria uma reportagem especial comigo e pleiteou fazer o trajeto no nosso carro, não no da imprensa. Conversei com os outros jogadores e resolvemos que não abriríamos exceção. “Não vamos permitir. Por que só a Globo?” – e continua – “Tomar uma posição dessas em uma hora de celebração é bastante incomum. Exemplo que mostra o espírito daquele elenco.”

Esse escrito tem como objetivo manter acesa a chama das três cores paulista. Tem como finalidade recuperar a história, não como um saudosismo inconsciente, mas como um incentivo ao futebol que queremos no futuro. A história se escreve a cada instante. Também tem como pretensão mostrar que muito do que acontece fora de campo se reflete dentro do jogo, o futebol é mais que as quatro linhas, está na terra, nos ares, nas palavras de técnicos e jogadores. As estatísticas são vazias quando não se consideram as pessoas. E nada é mais humano do que a coragem dos nossos ídolos.

Foto: Imortais do Futebol

Foto: Imortais do Futebol

Poucos clubes terão a qualidade técnica da equipe de 1992 do Tricolor Paulista. Nenhum clube terá a valentia do São Paulo em 1992.

Dentre os grandes, és o primeiro.

Por Mariana Moretti

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Bibliografia

1992: O mundo em três cores/ Raí, André Plihal. – São Paulo: Panda Books, 2012. 104 pp.

http://www.goal.com/br/news/3598/alemanha/2013/07/30/4154105/guardiola-lembra-mundial-de-clubes-de-1992-o-s%C3%A3o-paulo-dominou-o-

https://www.imortaisdofutebol.com/2012/03/18/esquadrao-imortal-sao-paulo-1991-1994/

A Bola que Pariu