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20.12.2017

Postado por Raisa Rocha

A reality é uma só: Futebol não é mesmo coisa de mulher

No topo da cadeia do entretenimento, o Reality Show a cada dia se entrelaça mais ao jornalismo, desnorteando ainda mais o espectador, espécie que nasceu única e exclusivamente para ser manipulada e tratada como se desprovida de cérebro.

A “brincadeira” ou “gênero televisivo” explora todos os tipos de temas e possibilidades – não me espantaria se em algum lugar do mundo fosse promovido um programa para eleger a “esposa perfeita”. Aliás, já foi! Porém, independente do perfil dos participantes e da finalidade, há duas regrinhas básicas de desumanização nunca quebradas:

Por primeiro, a premissa assumida da exposição de seres humanos a situações de observação e julgamento público, num tipo de simulação de zoológico de gente em cadeia nacional (mundial). Eu sei e você sabe que é o livre arbítrio de cada cidadão que o coloca nessa situação. Sei também que este é um artigo jornalístico e não uma tese. Por isso, me furtarei em não explorar os desdobramentos psíquicos causados pela evolução da (a) profusão da informação, (b) comunicação de massa e (c) a atual cibercultura e todos os aspectos de rede e não privacidade imbricadas. Todos esses fatores são pilares da nossa sociabilidade e nos transformam em presas fáceis e sedentas por esse tipo de situação de vulnerabilidade e exposição.

Mas, sigamos aos preceitos básicos dos reality shows…

Por segundo e nunca menos importante, o princípio inegociável da competitividade (tóxica), que contribui no esfacelamento das relações. Quer dizer, como se precisássemos de ainda mais ferramentas para tal neste modelo social em torno do capital, da produção e de invalidação do individual que exercemos há séculos.

João Bosco

João Bosco

Dentro disso, o Esporte Interativo, mais uma das tantas emissoras com programação esportiva (de futebol, sejamos honestos), com angulação pendendo para o entretenimento (como todas as concorrentes), anuncia com ares de pompa um REALITY SHOW QUE IRÁ ELEGER UMA NARRADORA MULHER PARA A PRÓXIMA TEMPORADA DA CHAMPIONS LEAGUE.

Esta será a segunda edição do programa. Em 2009 foi disputada apenas por homens, porque naquela época feminismo não era produto, e o vencedor foi Rafael Araldi, posteriormente contratado pela emissora. E aqui, bom esclarecer alguns pontos:

A “vaga” de 2018 é para a transmissão de uma única partida e a tal contratação é apenas uma possibilidade. De certo, apenas uma espécie de participação especial, mas não sem infinitas etapas, garantindo muito ibope, um tanto de ridicularização e muitas horas de mulheres ao vivo traduzidas em representatividade feminina (altas doses de ironia).

Ah, faz parte do “jogo” essas candidatas terem seus conhecimentos sobre futebol testados. Nada mais típico para você que, afinal, sabe ou não sabe a escalação do seu time?!

Ou seja, é como fazer um reality show de jogadoras onde a vencedora entraria de mãozinha dada com o Cristiano Ronaldo. É exposição barata, demagogia, manutenção de um jornalismo esportivo que vive de brincadeirinhas e tripudiar nas lutas das mulheres.

Reprodução

Reprodução

A torto e direito comunicadores, sejam profissionais ou meramente ex-jogadores, erram nomes de atletas e demais dados nas transmissões, estão falando abobrinhas na hora do gol e outras gafes. Mas a mulher não, ela precisa ser testada e testada de novo e aprovada pela população inteira! Busquei um exemplo, um único, onde o torcedor participou da seleção do novo ex-jogador (homem) que iria passar a comentar os jogos e destilar verdades em rede nacional. Não encontrei.

Dentro disso, nos espantam os fogos de artifício em torno dessa notícia. Inclusive de muitas mulheres, várias delas jornalistas que sentem na pele as barreiras do machismo que, acostumadas às migalhas oferecidas, acreditam que o programa tenha alguma relação com a luta pelos nossos direitos. Surpreende que a exposição, o uso das pautas femininas e feministas em prol de audiência e a ironia dessa proposta sejam recebidos com naturalidade e comemoração!

Isto não é representatividade! E não é representatividade porque não apresenta nada de transformação de um paradigma, pelo contrário, se vale da demanda por mais espaço no jornalismo esportivo para as mulheres para selecionar conforme o modelo já existente em reality shows: muita exposição e pouco profissionalismo.

Mais uma vez, a mulher exposta em torno da audiência. Mais uma vez, a mulher tendo suas capacidades postas em cheque e sob o preço da prova. Que empregos outros têm suas vagas preenchidas mediante aprovação pública, via votação por telefone ou pela internet?

De alívio, unicamente o fato que, ao menos dessa vez, as mulheres no futebol dos homens estarão em foco usando todas as roupas!

Ou não…

Encerramos lembrando dos casos de Antonela Lima, Karen Todoroff e Daiana Abracinskas no Uruguai; da Isabelly Moraes em Minas Gerais e da Elaine Trevisan, Juliane Santos e Natália Santana em São Paulo. Todos eles ocorreram neste ano de 2017, quando essas mulheres narraram e comandaram a cobertura de jogos E PRONTO.

Ramon Lisboa/EM/DA Press

Isabelly Moraes em ação pela Rádio Incondifência – Foto de Ramon Lisboa/EM/DA Press

 

Por Raisa Rocha e com a colaboração das setoristas d’A Bola que Pariu

A Bola que Pariu