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05.12.2017

Postado por Colaboradoras

Personagem da Semana: A Natalia e o Tri-color

Grêmio Bicampeão da América! Era essa a faixa estampada no alto da churrasqueira na casa da Natalia nos longínquos anos 90, mais precisamente 1995. A casa da Natalia era aquele reduto que toda a criança do bairro passava as tardes após a escola, tomando refrigerante, respondendo questionários e tendo ideias mirabolantes de como seria o futuro quando abandonássemos aquela pequena cidade no interior do Rio de Grande do Sul. Natalia era essa pérola chamada amiga de infância, crescemos juntas, unha e carne, sabíamos todos os nossos segredos, compartilhávamos a mesma paixão pelo Brad Pitt, o mesmo gosto musical, tudo batia. Exceto uma coisa: ela gremista, eu colorada. E é sobre ela e seu tricolor que abro essa coluna sobre meus personagens da semana.

Pinterest

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Passei a vida toda odiando o Grêmio, suas cores, seu estádio e seus ídolos, às vezes odiava minha amiga-irmã por aquele sorriso metálico do aparelho odontológico com as borrachas com as cores do Grêmio, campeão da América, bicampeão! – Tu não sabes o que é isso, sabe? E de pronto eu respondia: –  Não importa! Somos Tri brasileiro e o único campeão invicto e o primeiro no ranking da FIFA, e nosso ídolo é o Falcão! – Grande coisa, tu nem eras nascida quando isso aconteceu e tu só conheces o Falcão como comentarista da RBS, nunca o viu jogar!! Bom, era tudo verdade, esse só era o roteiro, muito bem decorado, que meus pais me ensinaram a falar, essas táticas paternas de ensinar aos filhos como se defender de bullying futebolístico, contando vantagem que seus pobres rebentos nunca viram, nem por videoteipe.

A única verdade em tudo no meu script/autodefesa ludopédica era que o nosso ídolo era o Falcão. E não precisava tê-lo visto jogar para simpatizar mais com ele do que o ídolo de nosso coirmão: O Renato Portaluppi, vulgo, Renato Gaúcho para aqueles que não nasceram nos Pampas. Falcão era elegante, falava bem, tinha o codinome de Rei de Roma. Portaluppi fazia gol de barriga, usava mullets e tinha toda a classe de um galã de rodoviária.

Reprodução

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Mas o tempo passa, e o tempo é o melhor amigo dos torcedores fanáticos. O tempo passou para nós e para nossos times, abandonei o Sul e em terras paulistanas vi todas as glórias do meu Colorado, não sem nunca lembrar Natalia que seu time foi rebaixado em 2004, que finalmente éramos campeões da América em 2006! A cada ligação, cada tocada de flauta que dava em minha melhor amiga eu estava descontando um pouco tudo aquilo que passei na infância. Confesso que matando a saudade também, pois qual a graça de vencer longe, sem poder infernizar os amigos e parentes mais próximos? Quando fomos campeões do mundo, Natalia se antecipou a todo o inferno que eu iria fazer e mandou um SMS: – Sei que deves estar gritando enlouquecidamente, não paro de lembrar de ti, Parabéns! Finalmente alcançaram a gente!

Passado mais de dez anos, o tempo virou novamente, virou o suficiente para que eu visse o Inter ser rebaixado, o Grêmio Tri Campeão da Libertadores e o Renato Portaluppi se transformar em um grande técnico. E vez ou outra, estar longe de casa te faz sentir falta até do que te importunaria em sua terra natal. E essa melancolia, meio masoquista, me fez andar pelas ruas de São Paulo na quarta passada tentando encontrar algum maldito gremista, só para ver sua cara torta de felicidade. Mesmo passados tantos anos, eu ainda olhava no celular esperando alguma ligação da Natalia. Era certo que não haveria, ela nos deixou precocemente em 2009 e não pode ver seu Grêmio ser Tri. Essa gangorra que é o futebol gaúcho me fez lembrar muito dos anos 90 e de nossa infância. E a falta que ela me faz me doeu mais que ver o Grêmio reconquistar a América, mais que o Renato Gaúcho pedindo estatua na Arena, saudade doida que me fez querer ter doze anos de novo, afinal algumas lembranças, assim como o Tricolor Gaúcho, são imortais.

Por Josie Rodrigues

A Bola que Pariu