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08.12.2017

Postado por Colaboradoras

O amor passa

Por que nós, seres humanos, temos ídolos?

A pergunta é difícil de ser respondida, e talvez não exista apenas uma resposta. A vida é dura demais e, por muitas vezes, injusta demais. Recentemente, assistimos grande parte da comunidade do futebol, formadora de opinião no assunto, se calar diante do caso de estupro que teve o jogador Robinho como protagonista e algoz. Não apenas se calar, mas compactuar com o ocorrido, negligenciando a gravidade do crime cometido. Estamos falando de alguém que marcou a história do futebol brasileiro, porém sem compartilhar o deslumbre de outrora em relação a sua imagem e seus feitos. Cai-se a figura do ídolo. A vida, de repente, se tornou insalubre novamente quando se percebe que todos os porcos são iguais, mas alguns são mais iguais que outros, ainda mais quando se têm poder e a mídia a seu favor. George Orwell que me permita a petulância, mas a anestesia da realidade proporcionada pela veneração do ídolo simplesmente acaba e temos que aceitar os fatos, sejam eles pessoais ou coletivos: a figura divina nunca existiu. Mas a realidade é dura, e Elis já interpretou brilhantemente a máxima: viver é melhor que sonhar.

Deixemos o sonho. Se formos pensar de forma nua e crua, frente a esses fatos grotescos, especialmente para as mulheres, não há muitas razões que nos fazem botar os pés para fora da cama todas as manhãs. Nesse panorama pouco animador, onde há a sede de falsas divindades, a humanidade foi presenteada com algo inspirador chamado futebol. E como ele não está desvinculado da sociedade, mas é um fiel escudeiro da própria, os tempos foram mudando e ele foi se adaptando a ela. Talvez a maior adaptação que ele sofreu, nos últimos anos, foi ver seus expoentes, os craques, se tornarem imagens comerciáveis. Existe o craque transformado em personagem e a personagem carregando um conjunto de valores que julgaram adequados serem associados a sua imagem e as cifras atribuídas a ela. Nesse sentido, compre, beba, vista. Faça um penteado semelhante. Siga-o cegamente e irracionalmente. O ídolo contemporâneo, assim como as divindades bíblicas, é aquele que tem centenas de seguidores fiéis. Ele não precisa mais da bola nos pés, quando tem uma legião abaixo deles.

Contudo, falando em deuses, semideuses e meros mortais, assim como Prometeu roubou o fogo dos deuses e o entregou aos homens e mulheres, algum asteroide chocou-se contra a Terra e trouxe de mundos mais evoluídos o objeto redondo que daria a inspiração chamada futebol. E não, esse asteroide não se chamava Charles Miller. O legado em terra brasilis dessa colisão resultou em uma criatividade tremenda, que não só inglês vê, mas de forma a encantar e iluminar os olhos do mundo inteiro quando a pelota está em nossos pés, sendo essa luz maior que o próprio fogo de Prometeu. Novamente, as divindades foram ultrapassadas pelos mortais. Segue o jogo.

Foto: Diogo Venturelli

Foto: Diogo Venturelli

Em poucas palavras fica complicado mostrar o quão frágil é a idolatria. Em um mundo volátil, em que tudo passa, sou petulante novamente ao botar o futebol na boca dos filósofos. Um homem não entra duas vezes no mesmo campo. Isso porque ele não será o mesmo, e o campo também não. Sabendo da prepotência da palavra e assumindo o risco, meu ídolo é e sempre será Diego Lugano. Meu coração é um tanto celeste por seu legado, e talvez seja a única coisa que me aproxime da veneração quase divina dos ídolos.

Levando em conta suas afirmações, que foram tantas nesses anos, provavelmente muitas outras foram mais importantes ao São Paulo Futebol Clube do que a que pretendo citar. Porém, hoje, a que mais define o sentimento é “o amor passa, mas a gratidão fica”. Poderia elencar todas suas qualidades como jogador, sua liderança e influência no desempenho do time, os títulos que proporcionou ao clube e, principalmente, sua postura diante das situações difíceis que passamos, especialmente nesse ano. Mas tudo fica pequeno diante do sentimento. Esse sim é mais honesto que as palavras.

Nelson Rodrigues escreveu uma vez que existem duas pessoas inteligentes no futebol: o craque e o torcedor. Pois bem, não é preciso apenas habilidade e carisma para carregar a braçadeira de capitão tanto em um clube, quanto na seleção. É preciso inteligência para contagiar e inspirar, e também para saber fazer escolhas. Basta uma escolha para jogar fora toda a veneração e respeito ou constar nas páginas de ouro da história de um clube. Basta saber escolher, e isso Lugano soube fazer muito bem. E a torcida, por sua vez, soube retribuir o respeito que teve pelo clube, como poucos tiveram. Somos a torcida mais orgulhosa desse país.

Foto: SPFC.net

Foto: SPFC.net

Você pensa em se levantar da cama, mas fica sem vontade, pois lembra como tudo nessa vida perece. A bola descostura, as bandeiras desbotam, os estádios esvaziam, as camisas desgastam, os craques envelhecem, a chuva escorre nas tintas dos muros apagando as três cores. O amor precisa da presença. Mas a gratidão… gratidão é para sempre.

Gratidão, DIO5!

Por Mariana Moretti

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