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18.03.2018

Postado por Colaboradoras

Gremista conta a história dos primeiros grenais

            A historicização do Grenal é uma peça fundamental no entendimento do clássico do campeonato gaúcho, principalmente pela fase em que nos encontramos. Após começar o torneio jogando com time misto, ido mal, e se recuperado, o Grêmio enfrentou o Internacional no último domingo (11/3) e venceu por 2X1. O que nos leva a seguinte situação: agora para as quartas de final, o terceiro colocado da primeira fase, joga contra o sexto colocado; o nos leva a outros dois grenais – um da primeira etapa, na Arena, e outro da segunda etapa, no beira-rio. Ou seja, só nesse gauchão teremos três grenais. Ainda bem que um já foi e ganhamos!

                Mas a proposta desse texto está em entender como e o porquê de o grenal ser o que é. Da onde veio a rivalidade? Qual foi o primeiro grenal? E tentar começar a entender tantas outras questões que nos colocamos e que envolvem o clássico estadual de proporções imensas que este é.

Divulgação

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                Antes de entender a história do grenal, é interessante saber um pouco sobre os times envolvidos. O futebol só foi conhecido em Porto Alegre após uma excursão do Sport Club Rio Grande, e, oito dias depois, em 15 de setembro de 1903, dois times foram fundados: O Fuss-Ball Club e o Grêmio Foot-Ball Porto Alegrense. Até 1909, esses dois jogavam apenas entre si, e por vezes disputaram o troféu Wanderpreis. Com isso, dois jovens entusiastas de futebol conhecidos como irmãos Poppe, tentaram se filiar a esses times. Entretanto, naquela época, equipe de futebol não era algo aberto, não haviam negociações de jogadores, campeonatos grandes a se disputar e mais do que isso: não havia lugar para mais pessoas além das que já estavam envolvidas. Com intenções de criarem um time deles, eis que nasceu o Sport Club Internacional, um time pequeno, mas com pretensões grandes.

                O recém-chegado Antenor Lemos, com sua determinação, conseguiu uma reunião com os dirigentes do poderoso Grêmio Foot-Ball Porto Alegrense. Nem o presidente do Inter na época, João Leopoldo Seferin, achava que era uma boa ideia o time jogar sua primeira partida contra um time de tamanha expressão na região. Porém, Lemos procurou o então presidente do Grêmio, Augusto Koch, afim de pedir que o imponente clube aceitasse uma reunião com os novatos do esporte bretão da capital do Rio Grande do Sul. A tal reunião foi marcada para um mês depois, e quando chegou, Lemos fez questão de apresentar sua comissão – composta por ele, Ortiz, Henrique Poppe e Juvenalino César, capitão do time – na sala em que esperavam os dirigentes do Grêmio – Koch, Álvaro Brochado, Guilherme Kallfelz e Júlio Grünewald. Apresentações feitas, eis que Ortiz, cuidadosamente citando o handicap do Grêmio como ‘um time mais antigo, mais prestigiado e conceituado’, disse que o Inter o convidava a ser seu primeiro adversário no domingo seguinte, ao passo que Koch respondeu que o segundo time estaria à disposição. Lemos, que não havia gostado da resposta e que sabia muito bem usar sua determinação, acabou por convencer os dirigentes do Grêmio a jogar com o primeiro time.

                O primeiro grenal da história, que teve lugar em 18 de julho de 1909, foi de puro nervosismo por parte do Inter. Eles tiveram um mês para acertar o time, e treinavam num campinho improvisado no bairro da Azenha, onde 45 anos depois o Grêmio construiria o glorioso Estádio Olímpico Monumental. As rodas de esportes da capital comentavam sobre a partida, até porque isso era coisa rara na época. O próprio Grêmio tinha a média de uma partida a cada dois meses.

Programa Grenal

Programa Grenal

                  No dia 16 o Inter já estava em sua preparação final para o jogo, quando notaram a presença do capitão do time do Grêmio, Booth, assistindo ao treino. O temido e experiente atacante teria dito que “Eles recém iniciam e nós temos seis anos. Vamos passá-los por uma dura prova, mas, se não desanimarem, vão para frente, pois nunca vi tanto entusiasmo e tantos planos nesse assunto de futebol”.

                 No dia do primeiro grenal, os jogadores do Grêmio estavam vestidos no estilo inglês, com camisas metade azul, metade branca, e calções pretos; os colorados, camisas listradas de vermelho e branco e calções brancos, à moda italiana. O árbitro foi Waldemar Bromberg, auxiliado por Castro Silva e Sommes – juízes de linha – e Theobaldo Förnges e Theodoro Bugs – juízes de gol; que nessa época não tinha rede, então eram eles quem determinavam se havia sido gol ou não.

                Exatamente às 15h25 deu-se o apito para o início do primeiro grenal da história dos clubes gaúchos. Nos primeiros momentos houve uma certa indecisão, o Grêmio estava analisando a força de seu adversário. Entretanto, não demorou para dominar a partida. Aos dez minutos Booth fez o primeiro gol do jogo e da história dos grenais e foi aí que o goleiro do Inter, Poppe II, deu os primeiros sinais de nervosismo. Aos vinte minutos, Booth fez o segundo gol, porém o Grêmio ainda teve um gol anulado por impedimento. Final do primeiro tempo: 2 Grêmio x 0 Inter.

                 Naquela época, os jogos duravam quarenta minutos, com um intervalo de 10 minutos. O primeiro grenal foi assim também. Na volta para a segunda etapa, o Grêmio voltou ainda mais empenhado em mostrar sua superioridade em relação ao seu adversário. O Inter bem que tentou dois chutes a gol, mas estes pararam nas poças de lama do campo de defesa do Grêmio. Todavia aos dez minutos, quando o Grêmio marcou o terceiro gol, os colorados já se mostravam cansados em campo. Apenas três jogadores continuaram correndo, o que facilitou e muito o trabalho dos experientes jogadores “portoalegrenses” – como eram chamados os jogadores do Grêmio na época. Passados trinta minutos, eis que o Grêmio havia feito sete gols. O jogo estava tão tranquilo que o goleiro do Grêmio, Kallfelz e mais dois jogadores, passaram muitos minutos conversando com os torcedores. Quando o juiz deu o apito final, de término do jogo, o placar estava: Grêmio 10×0 Internacional.

                 Depois disso o Inter passou três meses sem jogar, e esteve bem próximo do fechamento que só não aconteceu graças a Antenor Lemos, e o primeiro ídolo do time, Carlos Kluwe. Nesse interim, um sentimento especial alimentava Kluwe e Antenor. Afinal, para eles, o Grêmio ainda teria que levar o troco por aqueles 10×0. Os ‘portoalegrenses’ nem sabiam desse despeito dos colorados, afinal seu maior rival era o Fuss Ball e estes disputavam o Wanderpreis. Até o dia do segundo grenal, o Grêmio havia vencido seu grande rival dez vezes.

                 Todavia, o Grêmio queria alçar voos maiores. No dia 12 de março de 1910, o diretor de campo do Grêmio, Oswald Siebel apresentou sua ideia de fazer um campeonato com os times da cidade, onde o vencedor seria premiado. Sua proposta foi aprovada, e assim foi criada a Liga Porto-alegrense de Foot-Ball. Mas não só isso. Dessa forma o Campeonato da Cidade ganhou vida, sendo este o propulsor da rivalidade grenal.

                 Rivalidade esta fortemente demonstrada já no segundo jogo da dupla grenal, que aconteceu em 17 de julho de 1910. O Grêmio chegou como favorito, e dessa vez o Inter tinha se preparado. Mesmo assim não adiantou nada. O Grêmio fez 5×0 no Inter, e os destaques do jogo foram: as goleiras que agora possuíam uma novidade engenhosa, a rede, que permitia a todos terem certeza se foi gol ou não e acabava com o bate-boca; o outro destaque foi Edgar Booth, que fez dois gols e foi o pivô da primeira briga em grenais. Depois de apanhar a bola no meio e aplicar dribles em toda a defesa colorada, ele acabou barrado por um violento pontapé do irritado zagueiro Volksmann, que não aguentava mais aquela falta de respeito. Fechou o tempo. Jogadores das duas equipes trocaram tapas e por pouco o jogo não foi encerrado ali mesmo.

                 Jogo muito esperado por torcedores e pela imprensa, o terceiro grenal aconteceu no dia 18 de junho. Como o Inter vinha se apresentando bem, muitas pessoas diziam que dessa vez a história seria diferente. Porém, tudo continuou igual. O Grêmio venceu o Inter por 10×1. E nem mesmo o gol de honra foi capaz de acalmar o amargurado Carlos Kluwe que disse “Só posso deixar essa coisa de futebol depois de uma vitória sobre o tal de Grêmio. E das grandes!”.

                 Entretanto, Antenor Lemos não se contentou com o gol feito no terceiro grenal e, pela primeira vez na história do futebol gaúcho, recorreu à Justiça Desportiva. Disse que o meia Moreira, tinha vindo de Pelotas depois do início do campeonato – o que, claramente, contestava o título do Grêmio.  Ele foi derrotado. E, outro ponto importante desta época, é que no campeonato de 1911, foram cobrados ingressos. Os torcedores ficaram muito bravos, ao passo que o Grêmio respondeu que precisava arcar com os custos das obras no pavilhão da Baixada. Nos anos posteriores, a cobrança de ingressos foi institucionalizada e com isso o futebol deixou de ser a diversão de alguns guris de elite e passou a ser espetáculo.

                 No dia 23 de junho de 1912, muitas coisas aconteciam pela cidade de Porto Alegre. Inclusive, o quarto grenal da história dos clubes, marcado para início as 15h30. O jogo prometia. Mais de mil pessoas saíram de suas casas em direção a baixada para assistir o grenal. Os dois times começaram nervosos e jogavam mal. Um jogador do Inter teve uma lesão em campo e na época não poderiam haver substituições. O Inter ficou com um jogador a menos. Nesse interim, o Grêmio começou a dominar a partida ao passo que os jogadores do Inter reagiram com violência. Mesmo assim, o placar foi de Grêmio 6×0 Inter.

                 Esses quatro primeiros grenais servem como base histórica, mas mais do que isso, servem para nos ensinar como e de onde surgiu esse clássico tão famoso no futebol e sua rivalidade que, mais do que histórica, é comportamental. Ao todo, já foram 413 jogos entre os dois, com 129 vitórias do Grêmio, 154 vitórias do Inter e 130 empates. E é nesse ponto que voltamos ao início do texto. O grenal de número 413, citado no começo, foi mais uma prova das características cultivadas desde o primeiro grenal, como por exemplo o estranhamento que aconteceu antes do começo do jogo entre o Maicon e o D’Alessandro. E é aí que entra a questão da boa fase que o Grêmio está vivendo, e sua determinação em ganhar o Campeonato Gaúcho depois de um tempo considerável sem conquistar tal título – a última conquista do Grêmio no Gauchão foi em 2010.

Anderson Kbelo / Divulgação Inter

Anderson Kbelo / Divulgação Inter

                O próximo grenal, de número 414, que vai acontecer neste domingo (18/3/18) na Arena é de grande importância. Estamos nas quartas de final do Gauchão e, como existe a norma de que a decisão das quartas é na casa do time que teve a melhor campanha no campeonato dentre os dois que estão jogando, torna-se fácil entender a necessidade de um bom placar neste jogo na Arena. O Grêmio tem condições de ganhar esse grenal, é só entrar com raça e determinação em campo! Já ganhamos o primeiro grenal do ano, fica mais fácil ter motivação para ganhar os próximos. A vitória neste domingo, ao meu ver e com certeza de outros muitos gremistas, é mais que possível e sim provável. O nível tático e técnico do Grêmio – o time que foi tricampeão da América e vice do Mundial ano passado – consegue bater os do Inter. DALHE GRÊMIO!

Por Karyne Gheller

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