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Contra-Ataque,

12.04.2018

Postado por Colaboradoras

#DeixaElaTrabalhar: Evento gaúcho debate assédio na cobertura esportiva

Foto de Assessoria ARI

Foto de Assessoria ARI

Ao contrário do que a sociedade impôs por décadas, cada vez mais, as mulheres estão presentes em vários âmbitos do esporte. A nível local, por exemplo, o quadro de sócios do Internacional teve aumento de 20% no número de mulheres, na última década, e a do Grêmio, desde os anos 1980, saltou de 402 para mais de 10 mil. A nível nacional e mundial, mais vitórias: Em 2016, a Seleção Brasileira teve sua primeira técnica mulher e, em janeiro, a Arábia Saudita permitiu que as mulheres estejam presentes durante os jogos de futebol. Quanto ao espaço jornalístico, começam a aparecer diversos veículos inserindo narradoras em suas jornadas. Com isso, a presença feminina se apresentou com força em um dos maiores templos da masculinidade: os estádios. Obviamente, essa mudança foi recebida com intolerância, machismo e outros tipos de violência. E, as repórteres de esporte acabaram sofrendo muito com essas agressões. Pensando nisso, a Associação Riograndense de Imprensa (ARI) reuniu jornalistas gaúchas, nesta terça-feira (11/04), para debaterem com acadêmicos e a sociedade em geral, sobre o
assédio na cobertura esportiva.

O evento foi motivado pela campanha #DeixaElaTrabalhar, criada por um grupo de 52 profissionais do jornalismo esportivo, cansadas de sofrer preconceito durante a transmissão de partidas e outras coberturas. Dentre as vozes do movimento, a repórter Renata de Medeiros, da Rádio Gaúcha, fez parte da mesa de debate. A jornalista compartilhou a sensação de raiva e impotência sentida diante de uma agressão em serviço. “Eu chorei por 10 minutos antes de decidir se iria entrar no ar e ninguém sequer perguntou o porquê”, desabafou ela.

Para quem não se lembra, Renata foi uma das protagonistas de um vídeo que circulou as redes no último mês e teve mais de 6 mil compartilhamentos, apenas no Twitter. O material, gravado pela própria jornalista, mostra um torcedor a agredindo verbal e fisicamente, durante a cobertura do clássico gaúcho Gre-Nal, pelo campeonato estadual.

E ela não foi a única. Laura Gross, repórter da Rádio Guaíba e, também, debatedora do evento da ARI, relatou ter sofrido assédio físico e verbal durante a cobertura de Grêmio e Monagas, pela Taça Libertadores da América 2018. Apresentadora do Globo Esporte RS e também painelista na ocasião, Alice Bastos Neves destaca o quanto isso é frequente. “Quem aqui ouviu falar de assédio no jogo entre Grêmio e Monagas? [Ninguém levanta a mão] É porque isso acontece sempre e ninguém fica sabendo”, esclareceu a profissional.

Os dados comprovam a afirmação da apresentadora. Já sofreram abuso de poder ou de autoridade de chefes ou fontes 64% das jornalistas ouvidas em pesquisa da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji), juntamente com a Gênero e Número e com apoio do Google News Lab. E não para por aí, infelizmente, pois 83,6% das profissionais ouvidas já sofreram algum tipo de violência psicológica nas redações.

Reprodução

Reprodução

Cientes da pesquisa, as debatedoras demonstraram plena consciência do cenário. “A questão do olhar, da coisa velada, começa, muitas vezes, dentro da redação”, afirmou Alice Bastos Neves. Também integrando a mesa, a repórter da Rádio Grenal Ana Carolina Aguiar defendeu que é preciso confrontar essa situação. “Eu já disse várias vezes para meus colegas ‘esse comentário foi machista’. Também Já expliquei que não quero ser chamada de querida ou Aninha, quero ser tratada igual”, destacou Ana Carolina.

O evento também tratou sobre como o assédio afeta o psicológico e a autoestima das mulheres. Aberto para perguntas, surgiram histórias de violência da plateia, uma delas carregada do sentimento muito conhecido pelas mulheres, devido a cultura do machismo: a impressão de ser responsável pela agressão da qual foi vítima. A repórter da RBS, Kelly Costa, comentou essa sensação a partir das situações que enfrentou. “Eu fiquei com muita vergonha na hora de contar tudo que ele [torcedor agressor] havia me dito. Tive a mesma vergonha de relatar ao meu chefe e até para a minha mãe e meu pai”, revelou a jornalista. Kelly sofreu dois episódios recentes de machismo. Além da agressão verbal de um torcedor no jogo entre São José-RS e Brasil de Pelotas, em 25 de março, a repórter já havia ouvido, em julho de 2017, do então técnico do Internacional, Guto Ferreira, que não teria sua pergunta respondida porque era mulher e não tinha jogado futebol.

Foto de Kyane Sutelo

Foto de Kyane Sutelo

Jornalistas homens da imprensa gaúcha também participaram do debate, incluindo assessores da dupla Gre-Nal, porém o fizeram de uma forma diferente. A mesa principal foi tomada pelas seis painelistas mulheres e os homens ficaram em cadeiras laterais, simbolizando a importância desse espaço que o feminino precisa para se igualar na sociedade. A jornalista e professora Cristiane Finger, vice-presidente da ARI e mediadora do evento, destacou a importância dessa participação a nível de debate e de conscientização, afirmando que o machismo e o assédio não são um problema das mulheres e sim da sociedade como um todo.

O próprio relatório resultante da pesquisa Mulheres no Jornalismo Brasileiro apresenta recomendações para auxiliar na solução do problema. O documento traz sugestões de mudança dentro das redações — e da cabeça dos homens envolvidos no processo. No entanto, há um mundo de torcedores e torcedoras, atletas de ambos os sexos e profissionais que presenciam assédios e não fazem nada. Quem presencia ou fica sabendo de um estupro e fica calado também é culpado, conforme 90% dos entrevistados para a pesquisa “Percepções e comportamentos sobre violência sexual no Brasil”, do Instituto Patrícia Galvão, em parceria com a Locomotiva. Nesse cenário, a sociedade sabe o que é o certo e o que é errado. Então, por que ninguém protegeu essas profissionais e as tantas outras mulheres vítimas de algum tipo de violência? Não é hora de defender para o outro o respeito que tanto queremos para nós?

 

Por Kyane Sutelo

A Bola que Pariu