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18.05.2018

Postado por Mariana Moretti

Acima de nós, a esperança

Antes mesmo da bola rolar na Copa do Mundo, o maior evento futebolístico do universo conhecido, existe um momento igualmente esperado com ansiedade: a escalação das seleções. Mudam-se os jogadores, mudam-se os técnicos e basta sair a lista que, voilá, as reclamações permanecem.

Menos de 30 dias para o Mundial, e afloram especialistas de futebol em todo país, experts do posicionamento tático, avaliadores da meritocracia dos jogadores, entre outros critérios bastante sólidos para contestar quem vai fazer as malas e partir pra terra de Yuri Gagarín. “A Terra é azul, e não vi Deus”, seriam as palavras do cosmonauta. Isso porque Gagarin não era brasileiro e desconhecia nossa religião pós-moderna centrada nas figuras de Tite e Gabriel Jesus. A Copa é soberana e todo brasileiro tem liberdade (ainda) de praticar o ritual que melhor lhe convém.

Lembro-me de ver na televisão, ainda pequena, benzedeiras amarrando os pés de bonecos vestidos de laranja, simbolizando a Holanda de 1998, em meio a um frenesi que tomava o país inteiro: “não vão jogar”, afirmava a mulher, com uma mística que me deixava impressionada. Todo mundo era responsável por uma superstição, desde que fosse boa o suficiente para acompanhar os 11 guerreiros na empreitada. E, convenhamos, se Denílson driblou um paredão de defensores turcos, em 2002, em uma das jogadas mais bonitas da história das Copas, foi porque na chuteira dele tinha a esperança de milhões de brasileiros e suas mandingas infalíveis. Porque se tem uma coisa que o brasileiro tem e ninguém tira, é a esperança.

Foto: Denilson Oliveira

Foto: Denilson Oliveira

Mas por que tal jogador? E aquele outro? O futebol tem sua maior celebração de quatro em quatro anos, sem dúvida. E é normal que mais gente passe a acompanhar o esporte. Mas uma pergunta não me sai da cabeça. Todo ano há um campeonato regional, há um campeonato a nível nacional, sem contar a Libertadores da América, meu preferido. Todo final de semana, em todo canto desse Brasil, tem um jogo na várzea, um campeonato feminino que não é televisionado. Se temos tantos entendedores por aí, por que não acompanhar o futebol em outras épocas, também? Por que não incentivar o time feminino local?

Se para bom entendedor meia palavra basta, para entendedor de futebol, discuti-lo a exaustão apenas na Copa é um tanto controverso, para não dizer que é reduzir a complexidade que esse esporte tem na nossa realidade, todos os dias. É como discutir política apenas em ano eleitoral. Há muito que refletir sobre o panorama que estamos vivendo com relação ao esporte, em que o 7×1 se apresenta como consequência, e não causa. Se hoje as ruas não estão pintadas de verde e amarelo como antes, cabe o questionamento: estamos desacreditados com a seleção ou encarando tempos sombrios, em que temos que escolher entre comprar tintas ou fazer as refeições?

Aproveitando esse cunho religioso longe da ciência dos cosmonautas, eu faço parte da porcentagem de brasileiros que confiam cegamente em Tite. Se por um lado, eu confiando ou não, não faz a menor diferença pros acontecimentos que virão a seguir, por outro lado, eu gosto de acreditar que um pouquinho da minha esperança pode mudar o desfecho, assim, sem razão, sem evidência empírica aparente, só com aquela sensação infantil que apenas a benzedeira me mostrou que existe. Pra cada nome anunciado (mais uns que outros, obviamente) eu vibrei e confio piamente até que se prove o contrário. Confesso que deixei-me alienar por Tite.

 

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