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09.05.2018

Postado por Mariana Moretti

Os heróis improváveis

Dizem que a melhor defesa é o ataque. A não ser que se tenha os dois. Geralmente, um excepcional ataque é o bastante para trazer vitória a uma equipe, mas para fazer história é necessário um time que tenha qualidade tanto na linha de ataque, quanto na linha defensiva. Nesse sentido, as melhores seleções do mundo já provaram que a combinação entre os dois é primordial.

Época de Copa do Mundo, seria tempo de lembrarmos apenas dos artilheiros, dos goleadores, dos atacantes implacáveis? Não hoje! Hoje nos lembraremos dos primeiros a trazer a raça para dentro de campo. Daqueles que empurram o time pra frente, organizam e incentivam a equipe, e, juntamente aos arqueiros, evitam o temido gol adversário. Esse texto é sobre eles, e apenas eles, os zagueiros. Eles fazem o trabalho sujo: marcam, dão entradas duras, carrinhos e protagonizam desarmes certeiros.

Embora sejam a última esperança dos arqueiros, são culpados pelo menor deslize que resulta no gol: as valentes investidas são rapidamente esquecidas se eles falham. Errar é humano, mas o zagueiro está acima dos mortais. O zagueiro não pode falhar. Por esse motivo, faremos uma breve homenagem aos grandes nomes da zaga em Copas do Mundo:

Fábio Cannavaro (Itália)

Jaisper Juinen/AP

Jaisper Juinen/AP

Capitão italiano do tetra campeonato em 2006, Cannavaro, ou o “Muro de Berlim”, como foi apelidado, foi o primeiro zagueiro a ser eleito o Melhor Jogador do Mundo pela FIFA. Na ocasião, contou com três prêmios históricos para um jogador: a Copa do Mundo, a Bola de Ouro, e Melhor Jogador do Mundo, nunca antes oferecido a um defensor.

Símbolo de raça, determinação e liderança na Azzurra, Cannavaro, que já tinha sido gandula, teve uma atuação impressionante naquele Mundial, sendo lembrado por seu invejável vigor físico e notável habilidade, tirando bolas perigosas até de bicicleta. Levantou a taça após a Itália vencer a França nos pênaltis em 2006, e consagrou-se como um dos melhores zagueiros do mundo.

Diego Lugano (Uruguai)

Sandro Pereyra/EFE

Sandro Pereyra/EFE

Ídolo máximo da torcida são-paulina, o zagueiro foi protagonista de importantes conquistas do tricolor paulista, como o Mundial de Clubes de 2005. Sempre fiel aos amigos, comemorou o título em uma sapataria em São Paulo, longe da extravagância do futebol moderno. Exemplo, dentro e fora de campo, pela conduta que adotava e seria símbolo de sua carreira, Lugano é um dos inesquecíveis defensores que passaram pela seleção uruguaia, famosa por sua raça.

Conhecido por sua liderança, garra e lealdade, o zagueiro foi considerado o sucessor de Paolo Montero, consagrado na seleção uruguaia. Foi capitão na Copa de 2010, alcançando a quarta colocação junto à sua equipe, mas foi só no ano seguinte que sagrou-se campeão pela Copa América.

Trifon Ivanov (Bulgária)

Getty Images

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O defensor búlgaro disputou duas Copas, em 1994 e 1998, mas é lembrado como um dos responsáveis pela quarta colocação do país na Copa de 1994. Na ocasião de seu falecimento, em 2016, a Federação de Futebol da Búlgaria declarou: “Trifon Ivanov ficará na história do futebol búlgaro como um dos melhores defensores. Antes de ser um bom jogador, ele era um homem incrível e com um grande coração.” Ivanov não gostava de conceder entrevistas, pois desconfiava do sensacionalismo da mídia. Ainda assim, certa vez, fez uma preciosa declaração sobre seu apelido, “O Lobo”:

“É evidente que, quando eu não fazia a barba, nós ganhávamos. Todo mundo tem uma superstição. Meu apelido, o Lobo Búlgaro, foi inventado por outro jogador e não me incomoda. Eu não posso mudá-lo. E posso viver com isso sem me sentir ofendido. Temos um ditado búlgaro que diz: ‘O pescoço do lobo é duro porque ele trabalha sozinho, sem a ajuda de ninguém’”.

Quem acompanhou o futebol da década de 80 e 90, com certeza se lembrará de Ivanov. O “Lobo Búlgaro” pertenceu a uma memorável e imortal seleção, ao lado do ídolo Hristo Stoichkov, que, na fase eliminatória, tirou a França da disputa do Mundial. Surpreendentemente, sendo a zebra da Copa, venceu a Argentina de Batistuta e a então campeã Alemanha de Klinsmann, alcançando um feito inédito para o país.

Carlos Gamarra (Paraguai)

AFP

AFP

São poucos os brasileiros e brasileiras que acompanham futebol e nunca ouviram falar de Carlos Gamarra. Fez grande passagem pelo Internacional, mas foi pelo Corinthians que o paraguaio se tornou ídolo absoluto, conquistando o Brasileiro em 1998, e o Campeonato Paulista em 1999. Era o auge de sua atuação, marcada por sua habilidade, confiabilidade e espírito de liderança, características inerentes aos jogadores de sua posição.

Gamarra alcançou o feito de permanecer uma competição inteira sem cometer nenhuma falta na Copa de 1998, sendo o vencedor do prêmio Fair Play da FIFA. Zagueiro de raça e valentia, jogou contra a França com o ombro deslocado, e, embora o Paraguai tenha sido derrotado pelos donos da casa, Gamarra foi escolhido como um dos melhores defensores daquele Mundial, ganhando notoriedade e ressaltando o respeito que merece. Em 2002, repetiu a proeza: nos três jogos que atuou, novamente ficou sem cometer faltas.

Matthias Sammer (Alemanha)

Getty Images

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Considerado um dos melhores jogadores alemães de todos os tempos, Matthias Sammer, nascido em Dresden, na Alemanha Oriental, era conhecido como “Cabeça de Fósforo”. Foi o primeiro jogador da extinta porção oriental a defender a seleção da Alemanha unificada em 1990, época em que todos os craques se concentravam na parte Ocidental.

Foi destaque da Copa do Mundo de 1994, ano em que foi eleito o melhor jogador de seu país e, em 1996, ganhou a Bola de Ouro. Além disso, fez cerca de 115 gols durante sua atuação nos gramados. Entretanto, teve sua carreira abreviada por uma sequência de lesões: foram quase 10 anos atuando no futebol, tempo curto, mas, sem dúvida, amplamente marcado por sua genialidade.

Rigobert Song (Camarões)

Getty Images

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Emblemático zagueiro e capitão da equipe camaronesa, “Magnan”, como é conhecido em seu país, Rigobert Song disputou a Copa do Mundo pela seleção africana por mais de uma década.

Song esteve presente nas Copas do Mundo de 1994, 1998, 2002 e 2010, em quatro fases finais do Mundial. Encerrou sua carreira contando com 137 convocações para a seleção de Camarões. Ao contrário de Gamarra, que finalizou partidas sem cometer faltas no Mundial, Song pecava pelo excesso de vontade: foi expulso em duas Copas seguidas, em 1994 e 1998. Apesar disso, é um dos melhores defensores que já passaram pela seleção de Camarões.

Ricardo Rocha (Brasil)

Arquivo CBF

Arquivo CBF

Um dos melhores zagueiros da década de 80 e 90, Ricardo Rocha é um grande personagem do tetra campeonato de 1994, nos Estados Unidos. Quem bem se lembra dessa Copa, sabe que Ricardo não conseguiu se manter atuante na competição.

Líder incontestável, contagiava a equipe com sua motivação, raça, e o bom humor, que ficou sua marca registrada. Vítima de um estiramento na virilha durante a estreia contra a Rússia em 1994, o zagueiro ficou fora do restante da competição, e viu do banco de reservas o pênalti perdido por Baggio que deu o título ao Brasil.

O primeiro dia da lesão foi muito triste. Depois, eu pensei ‘Não tenho mais o que fazer sobre isso. Agora, preciso fazer alguma coisa. Tenho que tentar elevar o moral do grupo’.

Ricardo Rocha é exemplo da influência que um jogador pode exercer sob a equipe, mesmo fora de campo. Embora longe dos holofotes devido a lesão, o jogador é lembrado por ser capaz de contagiar, motivar e empurrar a seleção brasileira, que desfez o jejum de 24 sem títulos na competição.

Em suma, os zagueiros são nossos heróis improváveis. Muitas vezes esquecidos pela mídia, mas nunca por sua equipe. É sua postura de liderança que faz a diferença para o elenco, carregam o coração na chuteira e entrega à camisa, provando o valor que os defensores possuem dentro e fora de campo. Seguimos em busca das próximas lendas do nosso amado futebol!

 

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Referências

https://www.imortaisdofutebol.com/2012/06/20/craque-imortal-fabio-cannavaro/

http://trivela.uol.com.br/dez-causos-contados-por-trifon-ivanov-o-eterno-lobo-da-bulgaria/

https://www.imortaisdofutebol.com/2013/04/01/selecoes-imortais-bulgaria-1994/

http://cfernandoblog.blogspot.com.br/2014/03/top-10-maiores-jogadores-alemaes-da.html

http://www.alambrado.net/matthias-sammer-alemanha-e-a-ultima-vez-que-eles-conquistaram-a-europa/

https://www.cbf.com.br/noticias/imortais/zagueiro-do-tetra-ricardo-rocha-completa-55-anos#.WvJra9TwbIV

http://www.espn.com.br/noticia/674060_ele-foi-trocado-por-bolas-e-chuteiras-mas-venceu-a-copa-do-mundo-e-jogou-no-real-madrid

http://www.espn.com.br/noticia/635924_ex-liverpool-lenda-do-futebol-camarones-esta-em-coma-apos-avc

A Bola que Pariu