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21.06.2018

Postado por Colaboradoras

Amigo intelectual: libera o ópio!

Esse é um texto dedicado ao meu amigo intelectual. Resolvi te escrever para te explicar – entre outras coisas – que eu não sei te dizer quando o futebol começou a fazer parte da minha vida, acredito que desde sempre com meu pai e minha mãe. E assim seguiu a vida toda, desde quando criei o primeiro time de futebol feminino na escola até como me posicionar nas mesas de bar e nas copas de café das repartições da firma, um ato de resistência feminista em um ambiente predominantemente masculino.

Antes de tudo, caro amigo, tento entender teu desdém por essa que é a maior paixão nacional. Afinal, é normal olharmos o mundo por associação àquilo que nos é familiar. Talvez por isso seja normal nossa bolha utópica pensar no popular com certo olhar de zona oeste educada em Escola Waldorf. A cultura popular só é aceita desde que romantizada, como em texto modernista, datado há quase um século. Se olharmos hoje para a massa popular e percebermos que ela consome funk, sertanejo e torce pelo Corinthians, logo concluímos que é uma massa de manobra manipulável e passível de orientação doutrinária marxiana (como podem esses selvagens gritarem gol e esquecerem que são explorados?).

Jose Medeiros

Jose Medeiros

Mas aí, meu amigo intelectual, eu preciso te contar um segredo: o povo sabe que é explorado e que está à mercê de toda a sorte que lhe é imposta.  O transporte público está caro, o desemprego em níveis estratosféricos, a violência urbana atinge justamente quem está nos bairros mais periféricos e abandonados pelo Estado. A massa sabe disso, por isso vez o outra é libertador torcer pelo time do coração, é um ópio necessário igual a cannabis no fim do dia, sabe?

E mais, essa torcida popular está sendo cada vez mais expulsa dos estádios, com leis de higienização (sim, atingiu as arquibancadas) e ingressos a preços exorbitantes.

Reprodução Diário do Nordeste

Reprodução Diário do Nordeste

Meu amigo intelectual pode me dizer que até entende isso, mas o problema é a CBF, a Copa e a Seleção Canarinho. Sim, a CBF é um problema, bem como a elite acadêmica, os grandes meios de comunicação, a grande mídia impressa e tudo aquilo que faz com que a arte, a cultura e a educação se aparelhem com o mercado. E quanto a Copa e a seleção canarinho? Bem, ninguém liga mais para elas. A Seleção há muito tempo não é brasileira, só joga fora do país, quem paga para assisti-la é torcedor da Broadway. A Copa, o povo continua assistindo porque durante os jogos da escrete canarinho o patrão ainda libera a jornada de trabalho e, em tempos de nova CLT, isso tem sido um alívio.

Mas caso você, amigo intelectual, ainda ache que futebol é ópio, lamento informar: tem muita gente politizada usando do espaço agregador do futebol para fazer política, muito mais do que em saraus na Vila Madalena. É o caso das torcidas antifascistas; das torcidas feministas que lutam por igualdade dentro e fora das arquibancadas; das mulheres do Irã na Copa lutando para ver o jogo; do beijo gay dos torcedores da Inglaterra; da torcida do Senegal nas ruas de São Paulo; da batalha de alguns torcedores para não privatizar o Pacaembu. Amigo, você precisa saber que tem muita coisa em jogo.

Crianças ao lado de fora do Pacaembu em 1941. Foto Alice Brill

Crianças ao lado de fora do Pacaembu em 1941. Foto Alice Brill

Caro amigo intelectual, eu não quero que você se encante por algo que não dialoga com você, só quero te explicar que o futebol – assim como a vida – não é assim tão alvinegro: existe muito cinza nessas linhas e camadas. Mas se, por ventura, você achar que precisamos elucidar as massas pela nossa ótica e nossa percepção de mundo, lamento te informar, mas teu sangue bandeirante catequizador está falando mais alto que o teu socialismo. Libera o ópio, vai.

 

Por Josie Rodrigues

A Bola que Pariu